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1841–1875

XV

Luís Nicolau Fagundes Varela

Do sol do meio dia à luz dourada Entram em pobre aldeia. O augusto Mestre Em casa de Simão passara a noite. Ao vê-lo o povo insonte se alvoroça,

Deixa as ocupações, à rua corre, Saúda o Salvador. De vil tugúrio Ao lado esquerdo de viela imunda, Um hediondo vulto, esfarrapado,

Levanta-se gemendo, cai; de novo Levanta-se, e caminha vacilante, Fazendo recuar os curiosos, Que a seu aspeto, horrorizados fogem.

Roxos tumores, pútridas feridas Cobrem-lhe os pés, as mãos, o peito e o rosto; Esverdeado pus, aguado sangue, Empastam-lhe os andrajos asquerosos;

Não mais conservam pálpebras e lábios As formas primitivas, ora, apenas, Esponjoso tecido de tubérculos. Mostram, oh Deus!... os últimos — um riso

De escancarada chaga... As chagas riem! Aos pés do Salvador chega esta cousa. — Jesus de Nazaré! Se tu quiseres Eu serei são!... Exclama roucamente.

Jesus guarda silêncio, encara o pobre: A multidão se agita, treme, espera. — Quero! — ordena o Senhor. Ergue-se o enfermo, Seu rosto empalidece, depois cora;

Afogueiam-se os olhos, os tecidos Alisam-se e de peitos se guarnecem; Nova circulação traz vida nova Ao sangue arterial; a mocidade,

A saúde, o vigor, o todo animam Daquele triste ser, que sobre a terra, Passava pelas fases tenebrosas Da noite dos sepulcros! Tanto podem

A santa fé e a lúcida esperança!...

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