Sólio de santo horror, de santa glória! Pira da Redenção! Altar do mundo! Calvário soberano! — Quão medonha Então a luz do sol dourava as balsas
De teu cimo deserto! Quão tardios Ramalhavam os ventos na espessura De teus velhos sarçais! — Quão maviosos Pelas sombras dos álamos carpiam
Os pássaros amigos do silêncio!... Chegara enfim o séquito de algozes E a vítima celeste ao termo infausto Da jornada ominosa. O grande Mestre
Prostrou-se sobre a relva amarelenta, Nas mãos entorpecidas ocultando O rosto afogueado, e os tristes olhos Arrasados de lágrimas ardentes.
Os anjos imortais estremeceram Junto do trono eterno, e as frontes puras Inclinaram chorosos. As estrelas Afrontaram no céu a luz do dia,
O sol abrasador, no espaço imenso, Um momento parou... e esse momento Era um evo de dores assombrosas! — Pobre Rei dos Judeus! — disse um soldado
Contemplando o Senhor com ímpio gesto. — Vamos te dar um vinho generoso, Um suave elixir, grato aos sentidos, Propício ao coração. — Assim dizendo,
Apresenta a Jesus um brônzeo vaso Cheio de denso líquido, composto De esverdeado fel, grumosa mirra, E turvo, acerbo vinho. — Toma e bebe,
Faze ao mundo o teu brinde derradeiro! Jesus tomou a taça, o justo emblema Das provações amargas da existência, Ergueu-a tristemente aos roxos lábios,
E sentindo o licor viscoso e acre, Longe arrojou-a sobre as duras pedras. — Companheiros, à obra! — Altivo ordena O torvo chefe da tartárea turma...
Pulam movidos de secreto fogo Os levitas da morte, — Cristo assaltam, Cospem-lhe ao rosto, rasgam-lhe os vestidos, Arrastam-no sem dó pelos espinhos,
E o deitam sobre a cruz. Torcem cruentos Do mártir suspiroso os frágeis braços, E os pés dilacerados; prendem, cerram, Fazendo entumecer do colo as veias,
A cabeça divina ao vil madeiro!... Tenebroso painel! Quadro do inferno! Cena de execração! — Nas férreas garras Dos escravos da inveja e da mentira,
Volteia horrendo o rápido martelo Com sinistro fragor, e afunda os cravos Nos pés e mãos do Filho de Deus Vivo!... A terra se deprime, o lenho estala,
Rúbidas gotas de fervente sangue Borbulham das feridas hediondas, E deslizam em fios purpurinos Molhando a cruz e a relva da montanha.
Depois, ímpios verdugos, sobre a fronte Do augusto condenado afixam rindo Como um sarcasmo atroz este letreiro: — Jesus de Nazaré Rei dos Judeus. —
Concluídos os lúgubres trabalhos Erguem a cruz sagrada, e sobre um fosso Hasteiam-na, de pedras rodeada. — Se és filho de Deus, vem ter conosco,
Desce de teu madeiro e então creremos Nas escuras doutrinas que pregaste. — Assim falam, zombando e escarnecendo, Feros soldados, fariseus impuros,
Míseros servos dos tiranos padres. Não bastava o suplício acompanhado De humilhações cruéis, o torvo gênio Dos doutores da lei, dos sacerdotes,
Queria a execração além do sangue, Tinha sede de opróbrio. Alguns momentos Depois do pavoroso sacrifício, Mais duas cruzes negras avultavam
Aos lados do Senhor, e dois perversos, Dois audazes ladrões daquelas terras, Nelas se retorciam convulsando. Sublime lei do exemplo! Os magistrados
Não queriam perder tão grato ensejo De servir a justiça e a humanidade! — Se és o Filho de Deus, porque padeces? Perguntou a Jesus um dos bandidos,
— Salva-te, pois, e salva-nos, se podes! — Nem nas provas cruentas do suplício Respeitas o Senhor! — açode o outro. De nossas grandes culpas recebemos
A justa punição; porém, o Cristo Que falta cometeu? Depois, fitando Tristemente o Senhor, disse piedoso: — Oh! lembra-te de mim, quando subires
Ao teu celeste e glorioso Reino! E Jesus respondeu-lhe: — Não te aflijas, Afirmo-te, entre as sombras do martírio Que hoje entrarás também no Paraíso!
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