O sol dourava os píncaros das serras Quando as tristes mulheres lacrimosas, Do Redentor ao túmulo voltaram. Vendo, porém, caída a negra pedra
Correu aflita a pobre Madalena A buscar Simão Pedro e seus amigos. — Levaram do sepulcro o santo Mestre! — Lhes disse magoada. O velho apóstolo
Dirigiu-se, e mais outro companheiro, Ao jazigo de Cristo, entraram mudos, Cheios de devoção e de respeito; No chão viram as faixas e o sudário,
O sudário, porém, dobrado e limpo, Longe da sepultura, e a sepultura Descoberta e vazia! — Amedrontados Fugiram do jazigo a passos largos.
Fora, entretanto, sobre um velho tronco, Soluçava a formosa Madalena. — Porque choras, mulher? — então, da sombra Perguntou-lhe uma voz melodiosa.
A bela arrependida levantou-se, Volveu os olhos para a gruta escura, E divisou dois anjos colocados, Um do fúnebre leito à cabeceira,
Aos pés o outro, fulgurantes ambos, Ambos cingidos de lauréis divinos. — Levaram meu Senhor! — a pobre exclama, E não sei onde está! — Busca-o mais longe,
Responde um dos sublimes veladores. Madalena voltou o branco rosto, E viu de pé na entrada dos rochedos Tranquilo o Salvador! — Divino Mestre! —
Murmurou jubilosa. — Não me toques. Procura teus irmãos, procura-os todos, Dize-lhes que retiro-me do mundo Para o seio do Padre Onipotente,
Que é meu Senhor e teu! — Jesus ordena. A pálida mulher se ergueu de um salto, E rápida correu, levando a nova Do celeste prodígio aos desgraçados.
À tarde, estando todos reunidos, Distante da cidade, em pobre albergue, Ferrolhadas as portas, que medrosos Dos judeus sanguinários se escondiam,
Ouviram de repente um leve estalo E o Redentor apareceu, dizendo: — A paz seja convosco! — Apresentou-lhes O seio lacerado, as mãos rasgadas,
Depois, volvendo aos céus o pensamento Repetiu, bafejando-lhes as frontes: — Recebei o Espírito Divino! Assim como enviou-me o Padre Eterno,
Assim também ao mundo vos envio! — Prostraram-se os humildes companheiros, Quando, porém, se ergueram, no recinto Não mais estava Cristo! Como um sopro,
Como um floco de névoa matutina, Rápido e imponderável se afastara! Tomé estava ausente, e quando os outros Narraram-lhe o milagre, — duvidoso
Disse, encolhendo os ombros: — Necessário Fora que eu visse as chagas, que tocasse Dos cravos os sinais nas mãos feridas E que apalpasse o peito lacerado.
Então pudera crer. — Passados eram Oito dias, talvez. De novo, o Mestre Apareceu entre eles; nesse tempo Presente estava o companheiro incrédulo.
— Tomé, disse Jesus, — eis-me contigo, Toma entre as tuas minhas mãos, repara Em minha fronte lívida e sangrenta, Põe o dedo em meu seio! Inda duvidas
Que eu tenha ressurgido e seja Cristo? — — Meu Senhor e meu Deus! — Tomé murmura, Beijando os pés do Mestre redivivo, — Meu Senhor e meu Deus! Não me condenes!
— Porque tu viste, acreditaste logo, E o testemunho de teus olhos frágeis Antepuseste à glória de meu nome! Mais felizes, Tomé, os que não viram,
E apesar de não ver, seguros creram. — Disse, e leve sumiu-se como a sombra Que a luz da aurora expele dos fraguedos. Mais uma vez nas margens aprazíveis
Do lago azul dos ermos, onde outrora Soía meditar nas belas tardes De calmoso verão, mostrou-se Cristo A seus, então, sagrados sucessores;
Entre eles repousou, ceou contente, Sentado sobre a areia, ouvindo as queixas Das águas buliçosas, e os sussurros Das virações errantes nas folhagens
Dos frondosos, antigos arvoredos. Foi, porém, esta vez a derradeira, Sua missão na terra estava finda.
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