As formosas parábolas, ungidas Da mais suave e doce poesia, Os singelos painéis, onde a verdade, Simples como a expressão da natureza,
Os mais rudes espíritos cativa, A linguagem concisa, porém bela Do divino pastor, melhor ensinam Do que das Sinagogas orgulhosas
As extensas lições, e os vãos discursos. — Ouvi, diz o Senhor ao povo amigo Que por todas as partes o acompanha: Havia um homem poderoso e grande,
Grande no vício e grande na opulência. Vestia-se de púrpura e de seda, De brilhantes e pérolas se ornava. Em seu vasto palácio, dia e noite,
Rodeado de torpes lisonjeiros Folgava descuidoso. Em seus banquetes Fortunas despendia, e mais felizes Que muitos filhos de Abraão, viviam
Seus mastins e lebréus, cheios e fartos De manjares custosos e esquisitos. Também havia um sórdido mendigo Que Lázaro chamava-se, e coberto
De pústulas e chagas, suspirava Faminto e esfarrapado sobre as lajes Da porta do palácio do opulento; De dia enxames de nojentas moscas
O descanso vedavam-lhe, de noite Vinham lamber-lhe as úlceras doridas Os vagabundos cães das vizinhanças... Ora o pobre morreu, e do infinito
As falanges angélicas desceram E o levaram nos braços. O opulento Morreu, morreu também, mas dos infernos As legiões de Satanás surgiram
E arrastaram-no às chamas. Dos abismos Ergueu olhos febris, e viu, tranquilo No seio de Abraão, Lázaro o pobre. — Abraão! Abraão! Grita ansioso,
Dize ao ditoso Lázaro que molhe A ponta de seu dedo em água pura E me refresque a língua incendiada: O fogo eterno abrasa-me as entranhas!...
Abraão lhe responde: — Sobre a terra Viveste na abundância, e o pobre Lázaro Só conheceu desgraças e martírios! Goza por isso agora, e tu padeces.
— Abraão!... Abraão! brada o precito. — Uma ponte infinita nos separa, Diz o santo Abrahão, nós não podemos Passar, e dar-te a mão. A eternidade
Assentou-se entre nós. Assim quiseste! — Calou-se o Salvador, a passos lentos Caminha, dos apóstolos seguido, E vai a Jericó, velha cidade,
Cujos pesados bastiões, outrora Caíram com estrondo, ao som da tuba Do Arcanjo vingador, nos belos tempos Quando inda Jeová sagrava as hostes
E depunha nas mãos de seus guerreiros O gládio flamejante da vitória. Chega Jesus, e o povo se atropela, Ajunta-se e o rodeia. A uns incita
A vã curiosidade; a outros guiam A esperança e a fé. Um publicano A quem chamam Zaqueu, homem de posses, Mas de estatura pequenina e frágil,
Não podendo de perto olhar o Cristo, Qual travessa criança aos galhos sobe De um alto sicomoro, e dentre as folhas Espreita cuidadoso... num relance
O Salvador o vê. — Zaqueu, lhe fala, Desce e vem ter comigo, muito importa Que na tua morada hoje eu pernoite. — Apressasse Zaqueu, desce, e contente
Guia o Senhor à casa hospitaleira. Novas murmurações, novas censuras Partem dos fariseus e dos escribas, Vendo Jesus seguir um publicano
E albergar-se debaixo de seu teto. Zaqueu diz ao chegar: — Quero, metade Dar, Senhor, de meus bens aos infelizes, E quatro vezes mais darei, se acaso
Meu próximo lesei em seus negócios. — Hoje, exclama Jesus, em teu asilo Entrou a salvação! Sobre teus lares Do Eterno Padre as bênçãos se espalharam!
O seio de Abraão pulsou de júbilo, Pois o Filho do Homem veio ao mundo Buscar o que nas sombras vacilava, E salvar o que havia perecido!
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