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1841–1875

XIV

Luís Nicolau Fagundes Varela

Jesus, porém, curvado ao peso enorme Do tremendo madeiro, imenso peso, Que era o peso das culpas e delitos Das gerações perversas que passaram,

Que era o peso do mundo, tardo e lento Trilhava a longa estrada do Calvário. As lágrimas corriam copiosas Pelas faces dos pobres; tantas vezes

Lhes tinha Cristo aliviado as mágoas, E saciado a fome! Tantas horas De fundas aflições, de dores cruas, Como o gênio da paz e da esperança,

Ele havia levado a luz e a calma, O júbilo e o sossego a seus tugúrios! Como os amava o Mestre! As criancinhas Gritavam, soluçando, dos alpendres

Das casas do caminho. — Oh! Santo amigo! Que sangue é este que te molha o rosto? Onde essa gente bárbara te arrasta? Descalças as mulheres, desgrenhadas,

O seio descoberto, os olhos rubros Do contínuo carpir, atordoavam Os ares de gemidos. Compassivo Lhes disse o Redentor com voz pausada:

— Oh! de Jerusalém pálidas filhas! Não pranteies por mim, que aos paços volvo De meu divino Pai, mas por vós mesmas E vossa descendência! Um tempo infausto

Virá em que dirão da terra os povos: — Venturosa a mulher, cujas entranhas Fere a esterilidade. Venturosa Aquela, a cujos peitos infecundos

Ninguém se alimentou! Nesse momento, Jesus atravessava um passo estreito Perto de fundo algar, parou sem forças, Deu um grito de dor, tentou suster-se,

Porém caiu exausto; agudo espinho Um dos pés doloridos lacerava. — Levanta-te! bradou soez verdugo, E brandindo uma vara que trazia

Rijamente o feriu. O Santo Mestre Três vezes se moveu no estreito espaço, E três vezes cedendo à dor pungente Voltou ao duro chão, trêmulo e frio.

— Quem lhe quer dar a mão? — Pergunta o chefe Da guarda desumana, — o fardo é grande, O Calvário está longe. — Adiantou-se Da multidão silente um homem forte,

De espáduas largas, vigoroso colo, E tisnadas feições; era seu nome Simão o Cireneu, — calado e sério Ergueu Cristo pelos frouxos braços,

Pôs-lhe a cruz sobre os ombros contundidos, E ajudou-o a subir a pétrea senda. Então dos verdes campos do Ocidente, Por extensa vereda tortuosa,

Chegavam dois humildes caminheiros; Vinha na frente um camponês robusto De franco e nobre aspecto; e não distante, Poucos passos atrás, mulher singela,

Esbelta, porém triste e descorada Como saudosa e pálida princesa, Que pisa aflita as regiões do exílio. Perto da negra estrada do Calvário

Pararam suspirando. — Estava escrito! Nesse tempo outra vez caíra o Mártir Debaixo do madeiro, e a fera guarda Dizia-lhe cruentos impropérios.

A formosa mulher ergueu os olhos, Fitou o Salvador, e um grito agudo, Sinistro como o grito da demência, Escapou de seus lábios contraídos:

— Meu Filho! — Os duros corações tigrinos Se abalaram dos Ímpios carniceiros, Jesus se levantou. Seu belo rosto Sublime se fizera no martírio.

Pela primeira vez a Virgem Santa Viu cruzarem-se os fogos do Infinito, Os supremos clarões da Eternidade Nas pupilas do justo preeleito!

Os pobres, consternados, exclamaram: — Esmagai-nos, montanhas escarpadas! Outeiros pedregosos, escondei-nos! Quando sucede assim ao lenho verde,

Que destino terá o lenho seco?

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