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1841–1875

XIV

Luís Nicolau Fagundes Varela

Quarenta dias e quarenta noites, No seio estéril de profundos ermos Passou o Filho augusto de Maria Um jejum rigoroso, em longas preces,

E vastas reflexões! Quarenta dias Gastou no isolamento, assim mostrando, Quanto o retiro e a paz, quanto o sossego, As preces e orações são necessárias

Sempre ao começo das missões pesadas. Quarenta dias e quarenta noites Velou, sofreu, chorou, pediu o auxílio De seu Eterno Pai! Depois... Mistério!

Semelhante aos mais homens, sentiu fome! Então da sombra de espinhosa sarça, Sinistra e pavorosa levantou-se, Maculada de sangue, e lodo e cinzas,

Negra, hediondamente mutilada De Satanás a esquálida figura! — Se és o Filho de Deus, zombando fala, Ordena que estas pedras se convertam

Em outros tantos pães. — Jesus responde, Fazendo estremecer o negro gênio: — Não só de pães os homens se alimentam, Mas também das palavras que procedem

Da boca do Senhor! — Medonho riso Partiu dos lábios do rebelde arcanjo, Ouvindo esta sentença; pertinace Continua, porém, tentando o justo,

E por fim o conduz ao alto cimo De escarpada montanha, onde descansa; Estende para o espaço a mão tisnada, E com voz temerosa assim lhe fala:

— Jesus de Nazaré, olha, contempla Essas grandes nações, esses impérios, Que brilham a teus pés, como os desenhos Da um mapa gigantesco, iluminado

Por quantos sóis existem. Ao Levante A portentosa China se dilata Pelas terras de Sem, maravilhando Com sua profusão, luxo e grandeza

Os estados do mundo, conhecidos. Não guarda o tempo a mínima lembrança De sua fundação, nem fala a história Das dúbias tradições de seu passado.

Calam-se os reis, os sábios emudecem, Considerando a antiguidade e a glória, O poder e a opulência desse povo Fastoso e original. Vê que províncias,

Que cidades extensas! Que muralhas Rijas e monstruosas! Que palácios Pomposos e soberbos! O granito, O alabastro e o mármor de mil cores

Fulgem à luz do sol sobre os zimbórios Dos tempos colossais; o ouro, a prata, Os lúcidos cristais ornam as salas Dos nobres alcaçares. Pelas praças,

O cetim, o veludo, o linho, a seda, Os mais finos tecidos, que o Ocidente Jamais imitará, rolam sem preço. As angras desiguais, os fundos portos,

Os caudalosos rios, são pejados De guerreiros baixéis, juncos mercantes. — Além — surge atrevido à flor dos mares O vaidoso Japão; três grandes ilhas

Abrange seu domínio. Irmão nos usos, E rival no esplendor, não tem, contudo, Tão vasto território, e tanto povo Como a pátria das sacras tartarugas,

Dos alados dragões. — Deixa a península Mais extensa do sul, transpõe o golfo Sereno, azul sombrio de Bengala: — Eis a sublime Ofir dos patriarcas,

O berço de Vishnu, de Shiva e Brahma, A índia adusta, a inesgotável fonte De etérea poesia, a grande mina Das maiores riquezas do universo.

A seus pés, como a nítida esmeralda, Caída do colar de soberana, Jaz a verde Ceilão, mimo das águas, Paraiso dos nautas levantinos.

— Agora considera a bela Pérsia, O vergel de Bulbul, plumoso amante Da rosa purpurina; o doce asilo Das fadas e princesas encantadas,

O antigo reino de Dario e Xerxes; Tão vistosos jardins, fontes tão frescas, Aves tão lindas, tão risonhas veigas, Não doura o sol Oriental; as graças,

O gênio, o amor e a glória, abençoaram Do velho Zoroastro a descendência... — Ali está Babilônia, — além a Pártia, Depois a Média, — a tenebrosa Assíria,

A Caldeia sombria, a Bactriana, Abortos sociais, mesclas sinistras De riqueza e poder, de luz e trevas, De esplendor e miséria! À roda giram,

Sobre os mares de areia do deserto, Hostes errantes, indomáveis povos, Torvos herdeiros dos cruentos citas... Ao meio-dia estende-se, apertada

Pelo Vermelho-mar e mar da Pérsia, A rica, celebrada e livre Arábia. Os suaves perfumes que vaporam Os braseiros reais, os finos óleos,

Os bálsamos propícios, eficazes, Que os feios golpes de cortantes ferros, E as fundas chagas dolorosas curam, Saíram de seus bosques; os mais fortes,

Mais ligeiros corcéis, que conquistaram No campo da batalha, ou na carreira A palma da vitória, por seus campos Nitriram soltos, lestos e bravios...

— Volta-te agora para o Norte, a Síria Desdobra-se risonha, limitada Ao Oriente pelo ameno Eufrates, Pelos montes de Elão, ao Ocidente

Pelo mar Interior... Desde o reinado De teu avô Davi, cruentas guerras Fez sempre ao povo hebreu. Em seu circuito Levanta-se Antióquia a hospitaleira;

Depois Damasco, a rosa do deserto, Tear imenso das mais finas sedas, Grande oficina de polidas armas; Ao longe Tadmor, a obra-prima

Do sábio Salomão, deleita a vista Dos cansados romeiros: — Heliópolis A denominam hoje os peregrinos. Desde Abila até Cálcis, desde as bordas

Do Orontes cristalino, até os vales Que forma o grande Líbano, repara, Quantas lindas cidades, quantas vilas, Quantos casais e herdades derramados!...

— Ao lado ocidental, próxima às ondas Do buliçoso mar, ergue-se altiva A próspera Fenícia, o grande empório Do comércio do Sul e do Levante.

Foram seus filhos os primeiros nautas Que afrontaram as ondas do oceano, E as colunas de Hércules vingaram; Foram seus filhos os primeiros mestres

Que o manejo das velas conheceram, E a direção dos ventos, e a maneira De computar as horas e as distâncias. Em seus amplos depósitos e fábricas,

Vão procurar cativos mercadores A púrpura que tinge os régios mantos, E a madeira do Líbano, tão cara, Para os tronos dos príncipes da Europa,

E para os templos de seus deuses mudos... — Deixa o mundo de Sem. Preso a seu flanco Por uma nesga de terreno apenas, O patrimônio de Caim se estende,

E espanta os continentes. Nos rochedos De seus montes lavrados pelos raios, O epitáfio da glória e do progresso Avulta em letras hórridas; nas bordas

De seus rios malditos, se reúnem, Sócios dos crocodilos e das boas, Sinistros nigromantes, rudes magos, Ervanários fatais que a morte plantam,

E o desespero vendem. Nos ladrilhos Dos caídos palácios de Sesóstris, Latem anúbis, adorados perros; Broncas esfinges de granito rubro

Erguem dos areais a fronte morna, E consideram mudas e surpresas As gerações que passam... por seus lábios Fala dos Faraós o gênio às vezes.

No fastígio das lúgubres pirâmides, Delírios de grandeza, o feio abutre Lança um grito de fero desafio Às serpentes do Nilo. Não te agrada

Este escuro painel? — Bem, volve os olhos Para a ruidosa Europa, o ilustre berço Dos filhos de Jafé... Oh! como airosas Surdem à flor das vagas transparentes

As verdes ilhas da formosa Grécia! São cestinhas de flores delicadas, Que em momentos de ócio e desenfado Soltara a natureza sobre as águas

Nos tempos primitivos; são risonhas Constelações de mundos pequeninos, Sobre a escuma dos mares flutuando, Matizados de vinhas e olivedos,

Povoados de Sílfides lascivas E fagueiros tritões. Naquelas praias, Sobre aquelas colinas, coroadas De mirto e de açucenas, largas horas

Cismaram Safo, Anacreonte e Mosco, Teócrito e Bion, meigos cantores, Amigos dos outeiros e dos vales, Da vida pastoril. Quios e Samos

Coreira, Paxos, Ítaca, Zacinto, Pátrias de heróis preclaros, se derramam Quais leves, graciosas borboletas, Sobre o sereno mar. Além, avultam,

Citera, o asilo da mimosa Vênus, Chipre, o lagar dos vinhos os mais puros, Creta, a prisão do Minotauro, — Egina, Imbros, Siros, Eubeia, e centenares

De perfumados, lúcidos abrigos, Gratos aos olhos, ao prazer propícios. — A terra gloriosa, a terra clássica De Sócrates, Platão e de Aristóteles,

Inimitáveis sábios, se levanta Vedando a luz ao Bizantino império. O farol das nações, o insigne templo Da beleza real, do gênio o berço,

A luminosa Atenas, lá descansa No meio de prodígios. A seu lado, Esparta, a destemida, encara ufana A férrea estátua de Licurgo, e zomba.

Dos povos do Universo. Além, agita O manto de florestas viridantes A áspera Tessália: de seus montes Os fundos ecos, abalados sempre,

inda repetem de Alexandre o nome!... — Filha e senhora, imitadora e mestra, Ao flanco ocidental da Grécia ilustre, Espreita os gestos das nações vizinhas,

Sequiosa de sangue, a grande Roma. Tudo o que abrange seu olhar nefário De negra escravidão conserva o selo!... — Mais longe, a linda e deleitosa Ibéria,

Fértil em doces pomos, estremece Como se alma tivera, pressentindo Nos sucessos proféticos da história, Da Lusitânia o esplêndido futuro....

— Além, vingando cerros que a limitam, Avulta a Gália transalpina, escrava Outrora dos gauleses e ligúrios, Celtas e volcos, e dos francos hoje;

Quando o pesado ferro da charrua Passar por esses campos desprezados, Quando o martelo, a serra e as alavancas, O cinzel e o malho ressoarem,

Afugentando o ócio das cidades, Será dos povos do Poente o mimo. Um lidador da têmpera de César, Do gênio de Alexandre o Macedônio,

Da tenda de soldado irá sentar-se No trono das antigas dinastias. Tirano e popular, grande e mesquinho, Magnânimo e baixo, escuro misto

De fereza e bondade, calma e raiva, Ódio e clemência, de seus paços áureos Fará tremer o mundo!... Retalhada Por imensos marnéis, valas imensas,

Da Gália ao Norte estende-se a Batávia: Herdeira da Fenícia, seus pilotos Por virgens mares e remotas praias Desfraldaram audazes, denodados,

O pátrio pavilhão... Mudas, nublosas, Ao lado ocidental da Gália forte. Surgem altivas das sombrias ondas As ilhas da Britânia. A liberdade,

O poder, o comércio, a indústria, as artes. Terão ali seu pouso predileto, Quando rotas as bátavas bandeiras Dos mastaréus caírem. Seus governos

Quebrarão as cadeias opressoras De milhares do servos: sua esquadra Será dos mares soberana... Ao longe, Nos climas boreais entre neblinas

Ergue-se a Escandinávia, a rude filha Das tormentas polares; depois dela, A terrível Sarmátia se prolonga Do Norte ao Meio dia dominando

A Europa oriental... Por um momento Guarda silêncio o gênio dos abismos: Volve rápido olhar ao mar profundo,

Aos claros horizontes, e prossegue Mostrando àquele, a cujos pés os reinos Jazem como torrões, onde se movem Os bichinhos do pó, — as várias zonas,

As regiões incultas, mas repletas De auríferos tesouros, os impérios Fortes e populosos, explicando Sua origem, seus usos, seus costumes,

Seu lugar no porvir; depois se curva, Estende a mão tisnada e denegrida Para as remotas linhas indecisas, Onde as águas e as nuvens se confundem:

— Olha — Rei dos Judeus — Rei sem coroa, Sem cetro e sem vassalos, olha! — exclama. Oh! maravilha! O túmido Oceano Torna-se firme, liso, alvinitente,

Como se de seu rumo transviada, Longe do amigo sol, se congelasse Toda a terráquea esfera! As sombras fogem, O horizonte ilumina-se: milhares

De delicadas, vaporosas ínsulas Pejam o azul puríssimo do espaço, Quais flutuantes, primorosos ninhos De brancos cisnes e alcions errantes;

E além, além, na solidão dos mares, Aparecem os píncaros formosos De vastas serranias, os ligeiros, Esbeltos vultos das palmeiras altas,

Cujas copas virentes enlaçadas Balançam-se nos ares, como as plumas Vistosas dos pavões; as verdes selvas, As campinas, e as praias alvejantes,

Como as túnicas brancas das armênias À beira das torrentes estendidas; E, qual no dia primo do Universo, O mundo desbrochando à voz do Eterno

— Um novo mundo brota do Oceano. A terra e o mar, o mar e o firmamento, Saúdam no seu berço de princesa A jovem filha da imortal Cibele.

Lança-lhe aos pés o mar pérolas finas, O céu acende as lâmpadas dos trópicos, A terra esparge as flores mais cheirosas Que produzem as maltas e os outeiros.

Se uma ilusão não foi, não foi um sonho, Nem de um grande poema o belo esboço, Essa fecunda região, chamada — Terra da promissão — descrita outrora

Pelo exímio Moisés, oh! certamente, É nesses climas, sem iguais no globo, Que ela deve existir!... A luz etérea Inspira os passarinhos maviosos;

Acorda o reino mágico das flores Irmãs dos colibris, que dão fagueiras À viva abelha o mel, o aroma ao vento; Beija os lagos de anil, e nas espumas

Das torrentes raivosas do deserto, Serena transparece e amortecida, Como vendada pelas asas brancas De uma volúvel multidão de cisnes,

Que adejassem às bordas dos abismos. Semelhantes aos príncipes fastosos Das histórias do Irã, por toda parte, Onde passam seus rios opulentos

Lançam de lado a lado ouro e diamantes. A beleza, o prazer, a paz, o júbilo, O ar festivo, a juvenil frescura, A louçania dos primevos tempos,

— Essa irradiação da natureza — Virgem ainda, ainda soberana, Não pelos homens profanada, — brilham No azul do céu, na solidão das matas,

Nos fastígios dos montes, nas correntes Dos arroios queixosos, e amenizam Os livres campos, as aldeias livres, Os livres lares de uma raça ingênua,

Senhora das florestas. — Indulgente Jesus contempla o grandioso quadro, Meigo sorriso os lábios lhe descerra, Doce expressão de amor e de bondade

Anima-lhe o semblante. — Considera, Prossegue Satanás, esse prodígio Que dos seios das águas se levanta, Igual aos sonhos das empíreas sestas.

Nenhum rei dos antigos continentes Conhece-lhe a existência, nenhum padre Das crenças todas que os mortais cativam, Aí pregou as rígidas doutrinas;

Mundo esplêndido e forte, ao longe dorme, Feliz, desconhecido dos tiranos, E dos servos de Plútus, cobiçosos, Entregue à eterna lei da Providência!

— Pois bem, tudo o que viste e vês ainda, Reinos, impérios, territórios vastos, Regiões fecundíssimas, tesouros Para comprar os tronos do Universo;

A força, o poderio, a fama, a glória, Tudo, tudo te dou, se engrandeceres Meu nome, pelos séculos maldito! Se beijares meus pés, se reverente,

Prostrado sobre a terra me adorares! — Ruga severa apareceu na fronte Serena do Senhor, estranho lume Correu no santo olhar.

— Impuro gênio! Responde, e se levanta, — escrito existe: A Deus adorarás, a Deus somente Humilde servirás! — Então, ouvindo

Este preceito memorando, eterno, Que das sombras do tempo despertava Negras lembranças de medonha culpa, Sentindo ainda na cabeça horrenda,

Doerem as feridas incuráveis Que os raios vingadores produziram; Satanás emudece, abaixa os olhos, Um momento depois, tomando alento.

Prossegue opiniático: — Sossega, Não mais te enfadarei, mostrando o quadro Das nações e dos povos; se quiseres, Te levarei mais perto... — Quero, vamos!

Lhe responde Jesus. — Nos largos ombros Satanás o sustém, sacode as asas, Eleva-se do chão e ganha o espaço, Atravessa veloz os densos ares,

Chega a Jerusalém, por fim, e para No fastígio do templo: — Precipita-te Daqui ao chão, se do Senhor és Filho; Também escrito está, diz motejando,

Que as celestes, inúmeras falanges Te ampararão nos braços protetores Para que não tropeces, nem molestes Os pés nas duras pedras!

— Ouve, escravo Da mentira, do orgulho e da impureza: Teu Deus não tentarás, — também foi dito! — Afasta-te do mim! — Jesus ordena.

— Forçado então a obedecer, vencido Por um poder maior, Satã se curva, Lança medonho e furioso brado, E some-se entre lúgubres negrumes,

Deixando o ar infecto e o espaço turvo. Mas de todas as partes do horizonte Brilhantes legiões de anjos excelsos Surdem, batendo as asas alvejantes;

Deixam o firmamento, e circulados De etérea claridade, ao mundo descem, E prostram-se, cantando augustos hinos, Aos pés do Salvador. Depois se ajuntam:

Uns inclinam as cândidas espáduas Onde Jesus repousa; outros, alegres, Abrem as amplas, perfumadas asas, Formando um grande pálio, que protege

Dos rigores do tempo a fronte santa; Os outros em falanges divididos Buscam a vastidão, rasgam velozes As nuvens purpurinas do Oriente,

Derramando às aldeias e cidades, Aos agrestes casais e às pobres choças As bênçãos do Senhor. Por fim, serenos, Baixam remoinhando, e ledos param

Da Galileia nos ridentes vales.

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