Mas silêncio! Lá fora entre as rajadas Indômitas do vento, tristes queixas Se fizeram ouvir, depois no alpendre Maviosas palavras ressoaram.
— Dá-nos abrigo, oh Virgem gloriosa, Que saímos de longe e te buscamos! — Maria estremeceu: era tão meiga, Tão doce a débil voz que lhe falava,
E tão medonha a noite, o céu tão negro, Tão funda a escuridão, que levantou-se, Tomou o largo-manto e abriu a porta. Indizível surpresa! Excelsa glória!
Três lúcidas irmãs, três mensageiras Das regiões supremas, penetraram No hospitaleiro asilo da virtude. — Anjos de meu Senhor! Maria exclama
Cheia de confusão e de respeito, Anjos de meu Senhor, sede bem vindos Na mesquinha morada da humildade! — Estrela do Israel, — Farol dos justos,
Rainha e Mãe das imortais falanges, Diz a primeira das irmãs, — não temas! Companheiras eternas de teu filho Ouvimos-te chorar; e pressurosas
Voamos a teu lado. Ouve, Maria: Eu sou a viva luz dos santuários, A rosa imarcescível da pureza, O gênio da verdade. Sábia e forte,
Dou vida às brenhas, escravizo as vagas, Domino os vendavais, desprezo os raios, Vitoriosa encaro a morte horrenda! Sou a fonte da glória e do heroísmo!
Senhora, eu sou a Fé! Não me conheces? — Calou-se a peregrina do infinito. A segunda falou: — Quando a serpente Turvou do Paraíso o ameno lago,
Onde o mais puro afeto se espelhava, E do jardim das célicas delícias Lançou da terra aos pântanos lodosos A humanidade escrava, compassivo
Formou-me o Criador. — Na tempestade Sou o íris, o núncio da bonança, A estrela do pastor, a roxa aurora; Sou nos vergéis a flor da primavera:
Na moléstia a saúde; a luz nas trevas: Nas prisões o perdão: no passamento A clemência de Deus, a eternidade! Sou a Esperança, a êmula da vida!
Eis-me contigo, oh Virgem soberana! — Calou-se a peregrina do infinito. A terceira falou: — Passei a infância Na tenda de Abrahão, o pai dos povos,
O amigo do Senhor; tornei-me grande Ouvindo no deserto a voz do Eterno Aconselhando o exímio patriarca. Tenho o condão sublime dos prodígios.
Sou a pomba nas águas do dilúvio, Sou a fonte de Agar nas soledades, A coluna de fogo nos fraguedos Das estrangeiras terras!... Virgem santa!
Anjo que tantas vezes hei seguido No recinto da dor e da miséria, Onde levas o pão, a luz e a calma! Coração piedoso! Etéreo cofre,
Onde todas as lágrimas que rolam, Em riquezas subidas se transformam! Onde todo o soluço encontra um eco! Onde todo o martírio encontra um prêmio!
Eu sou a confidente de teus sonhos! Eu sou a Caridade! — Assim falando Prostraram-se as celestes emissárias, E adoraram do Empíreo a soberana.
Mas, palpitante o seio, os lábios mudos, Cruzados sobre o peito os níveos braços, Cismava extasiada a Mãe de Cristo. Quando, porém, o enleio superando,
Levantou a cabeça, — os três arcanjos, Para junto de Deus tinham voltado.
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