Quem te deu o poder, a autoridade De censurar a lei, — fazer milagres, E reformar doutrinas? — Onde a norma De teus atos achaste? — perguntaram
Depois os fariseus, padres e escribas Ao filho de Maria. — Respondei-nos! — Hipócritas! se tendes o direito De vir interrogar-me, também quero
Saber o que pensais, — nada de ambages! Era dos homens, ou de Deus provinha O Batismo de João? — Embaraçados Consigo discorreram: — se afirmamos
Que era do céu, acudirá, de certo; — porque não crestes nele? — se ao contrário, Dissermos que dos homens, todo o povo, Que a memória respeita do Batista,
Se erguerá contra nós! O que faremos? — E disseram depois de longa pausa: — Grandes dificuldades hoje aventas! Quem as pode solver? — Então calai-vos,
Responde o Salvador, por minha parte Não vos direi também de onde dimana A minha autoridade. — Dirigiu-se Depois às multidões, que não perderam
Uma palavra, só, deste incidente: — Plantou um lavrador extensa vinha, Arrendou-a a diversos camponeses, E depois se ausentou por largo tempo.
Num dia de verão, que repousavam À sombra do arvoredo, chega um servo, E em nome de seu amo pede os frutos Da vinha que deixara: enraivecidos
Pulam os vinhateiros e maltratam O desgraçado servo, que regressa Molesto e ensanguentado; vem segundo, Vem terceiro emissário, e a mesma sorte
Sofrem, e o mesmo fero espancamento. — Cumpre-me agora, o lavrador pondera, Uma vez que meus fâmulos repelem, Mandar meu próprio filho, o filho amado,
Que os chame a seu dever. — Sem mais tardança Envia o primogênito. De longe, Avistando o mancebo, os vinhateiros Reúnem-se apressados e resolvem:
— Não voltam mais os servos timoratos, Vem agora o herdeiro, assassinemos O importuno senhor... a vinha é nossa. E lançaram-se à vítima inocente,
E a deitaram por terra inanimada! Que restará fazer? Que providência Dará o lavrador? — Virá terrível, Matará sem piedade os vinhateiros,
E a outros mais fiéis e caridosos A vinha entregará! — Deus não permita Que suceda tão feia atrocidade! — Dizem os fariseus, depois que o Mestre
Concluíra a parábola agourenta. — Escrito está, — o Salvador prossegue: A pedra, que os obreiros esqueceram, Pedra angular será do grande templo;
Quem sobre ela cair, por muitos evos Ficará quebrantado, e o desditoso, Sobre quem despenhar-se, em mil pedaços No pó do escuro chão será desfeito! —
Compreenderam bem os sacerdotes E os seus torpes asseclas, o sentido Destas palavras temerosas, viram De quem o santo Mestre se ocupava!
O farpão da ironia entrou, bem fundo, Nos ímpios corações, e exacerbando O ódio que lá estava. Houve um momento Em que pensaram na medida extrema,
Que em secreto conselho resolveram. Convinha agora lançar mão de Cristo. Conduzi-lo a prisão? — Grave imprudência Seria o praticar. E por ventura
Consentiria o povo, o rude povo, O povo turbulento que o saudava Como um libertador? Que arrostaria, Não talvez por amor, piedade ou zelo,
Mas por vingança, ou desabafo, as iras De seus velhos tiranos e exatores? Era mister cautela. Antes, por isso, De arrebatar ao povo o seu profeta,
Cumpria procurar por mil maneiras, Que dele se afastasse o próprio povo: Foi dos pérfidos este o grande empenho. Começa a obra de Satã. Farejam
Por toda a parte os espiões indignos As pisadas do Mestre; urdem ciladas, Acumulam embustes; — os doutores E os escribas rodeiam-no, propondo
Perigosas questões, em cujos termos A serpente traidora está latente, Como entre as flores de um jardim formoso; E ensinando a brandura e a caridade,
O Salvador caminha entre verdugos! — Mestre, consulta um saduceu, conheço Que és sábio, verdadeiro, pio e reto. Que da virtude desbravais as trilhas
Sem calcular futuras consequências; Dizei-me: — é justo que se pague a César O tributo exigido? — Ora, pensava O fariseu astuto, ei-lo vencido:
Se assevera que não, ao rei ofende; Se assevera que sim, o povo irrita! — O Salvador sorriu, vendo a malícia Desta cruel proposta, — refalsada,
Traidora como a faca de dois gumes. — Hipócrita! — exclamou, porque me tentas? Deixa ver a moeda do tributo! — Então mostrou-lhe o pérfido um dinheiro
Onde a efígie de César ressaltava. Jesus leu a inscrição e erguendo os olhos, Severo perguntou: — Quem representa Esta imagem que vejo? — César, Mestre. —
— Pois bem, o que é de César, dai a César, E a Deus o que é de Deus! — Esta resposta Encheu de confusão quantos a ouviram; Calou-se o fariseu. — Mas era o dia
Do jogo vil da astúcia e da maldade. Chegou a vez dos saduceus, contrários Ao da Ressurreição divino dogma. — Mestre — um deles falou, nos santos livros
Deixou Moisés escrito; — A lei ordena: Se algum varão morrer, logo a viúva Ao seu segundo irmão deve ligar-se Para dar sucessão ao falecido.
Eram, pois, três irmãos: morto o primeiro, A viúva passou para o segundo; Morto o segundo, ao último se uniu, Este morreu também, e como os outros,
Herdeiros não deixou; por fim, mais tarde, Segue a mulher a sorte dos maridos. Quando a trombeta do medonho arcanjo Ressoar pelos términos do mundo,
Chamando os mortos ao juízo eterno, E abrirem-se os sepulcros, vomitando A luz do dia os homens redivivos, Qual d’esses três irmãos, esposos todos,
Todos senhores de um igual direito, Será julgado o verdadeiro esposo? — — Cegos! — não conheceis as Escrituras, Nem refletis de Deus na Onipotência!
Exclama o Salvador. — Findas as provas Da terrestre jornada, a lei se acaba, Que rege a criação sujeita à morte. O que provém do tempo o tempo guarda,
O que se dá no espaço o espaço encerra. Aos olhos do Senhor, quebram-se os laços Da união secular, — só prevalecem Eternas leis, princípios imutáveis;
Nem existem maridos, nem mulheres, Senão anjos benditos, engolfados Na gloriosa luz do Paraíso! — — A verdade manou de vossos lábios,
Como um profeta respondeste, Mestre! — Os escribas disseram. Confundidos Os fariseus rebeldes se afastaram.
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