Skip to content
1841–1875

XI

Luís Nicolau Fagundes Varela

Era, porém, bem tarde. As torvas horas Da negra provação tinham passado; O mistério do Horto se cumprira, E como o lavrador que os prados rega,

Onde deve lançar vivas sementes, Jesus regara a terra; então, ergueu-se, Dizendo aos sonolentos companheiros: — Tudo está preparado! E, pois, agora

Podeis dormir em paz; mas, vos afirmo Que não tarda o momento da vergonha! O traidor anda perto, o Filho do Homem Vai ser entregue aos Ímpios! — Vede, amigos! —

Dolorosa verdade! As largas folhas Das viçosas solâneas refletiram, Como em noites de fúnebres agouros, Mil vacilantes fogos; os arbustos

Estalaram ao peso das passadas De cautelosos, pérfidos magotes; E assustados os tenros passarinhos Por tão estranhos lumes, se arrancaram

Tomados de pavor dos ninhos quentes, Sacudindo das frondes do arvoredo Uma chuva de orvalho. A curto espaço Assomavam por entre os leves ramos

As finas pontas das lustrosas lanças. Compridas alabardas, longas varas, E rubros fogaréus; depois... opróbrio! A figura satânica de Judas

Apareceu à frente dos sequazes, Dos inimigos pérfidos de Cristo! Manso como um irmão, como um amigo, Aproximou-se o monstro, as mãos impuras

Da vítima infeliz lançou aos ombros, Beijou-lhe o branco rosto, e com voz firme Disse, e afastou-se: — Deus te salve, Mestre: — Judas! — exclama o Salvador, — não basta

Que me houvesses traído? E é por um beijo É por um beijo que me entregas, ímpio! — E voltando-se ao povo que o cercava: Quem procurais? — Jesus o Nazareno,

Responde o chefe da sinistra escolta. — Eu sou! — diz o Senhor. A malta infame Recuou assombrada. Então, de novo Interrogou Jesus com voz severa:

— Quem procurais aqui? — Jesus o Cristo, Repete a multidão. — Sou eu, prendei-me, Conheço vosso intento e vossos planos; Livres, porém, deixai meus companheiros,

Que nenhum seduzi, nem fiz culpado! — Calou-se o Redentor; mas, Simão Pedro, Simão Pedro o singelo e franco amigo, O lhano sócio, o dedicado servo,

As afrontas prevendo e os vis insultos Que o Mestre ameaçavam, se enfurece, Puxa da espada que trazia, e lesto, Como a chispa sutil da pederneira,

Corta uma orelha a desgraçado assecla Dos sanhudos tiranos. — Pedro, Pedro, Exclama o Salvador triste e sentido, — Cumpre esgotar o cálice de angústias

Que me ofertou meu Pai! Guarda essa espada, Que o sangue me horroriza! — E a mão levando Ao lugar da ferida, uniu a orelha, E o servo ficou são qual dantes era.

Então, feroz tribuno e vil coorte, Rudes e miseráveis quadrilheiros, Bando voraz de pérfidos abutres, Lançaram-se ao Senhor, — com duras cordas

Arrocharam-lhe os pulsos. Seus amigos Tomados de terror se dispersaram....

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.