Sobre os tetos dos míseros tugúrios,
Dos palácios reais sobre os eirados,
Estende a noite escura a sombra imensa,
Que nem sempre derrama a paz e o sono.
Aves de Deus, as virgens e as crianças,
Adormecem risonhas, ocultando
Nas asas da inocência as frontes santas.
Voltam os velhos ao passado, em sonhos,
Em sonhos o futuro os moços galgam.
Mas os ímpios não dormem! Fulgurantes
Ardam embora perfumados círios
Junto dos leitos de ouro: embora brilhem
Dos estucados tetos penduradas
Alâmpadas riquíssimas! Embora!
Não há luz que afugente as trevas d’alma!
Nos vapores do vinho e nos banquetes,
Nas orgias febris, nos jogos loucos,
Um momento se abranda e se entorpece
O verme dos remorsos... — Mais faminto
Acordará nas horas do silêncio.