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1841–1875

XI

Luís Nicolau Fagundes Varela

Ora, naquele tempo, dos desertos, Das regiões incultas, que se estendem Para o Setentrião, onde só vivem Sinistros corvos, esfaimadas águias,

Venenosas serpentes; onde as pragas Das eras de Moisés passam ainda Pejando as soledades de terrores; Das estâncias fatais, onde nem pousam

Do velho mundo as tribos forasteiras, — Implacável censor, áspero Mestre, Desceu pregando às turbas depravadas A palavra de Deus, chamando os homens

Às fontes do Batismo. Era mancebo, Entrava na estação próspera e bela, Em que o farol brilhante da esperança Clareia até o fundo dos abismos;

Em que os prazeres, as paixões fogosas, O vivo imaginar, a terra e as cousas, Fáceis, transformam num jardim de fadas; Entretanto, seu vulto e seu aspecto

Eram a encarnação, lúgubre e triste, De tudo quanto há rígido, severo, Acerbo e rigoroso neste mundo! Duro couro de velho dromedário

De manto lhe servia, duro couro Encarquilhado, cru, preso às ilhargas, Servia-lhe de cinto. Era sozinho. Não trazia sandálias, nem guardava

Dos rigores do sol a fronte altiva. Tinha o rosto trigueiro, o corpo magro, Crivado das picadas dos insetos, Dos agudos espinhos dos silvados;

Habitava os fraguedos e as cavernas, E passava seus dias meditando Nas leis do Criador. Seu alimento Era o silvestre mel, e os gafanhotos,

Que em densas nuvens, dos sertões da Síria Baixavam da Judeia aos tristes campos. João Batista chamava-se. Movidas Pela eloquente voz, pelas doutrinas

Desse inspirado e ríspido mancebo, E mais ainda pelo santo exemplo Do santo proceder, de toda a parte Vinham as gentes confessar-lhe as culpas,

E receber as águas do Batismo. Era como o gigante dos profetas, Como o assombroso Elias. — Raça impura!

Raça de negras víboras! — dizia Aos fariseus e saduceus perversos, Que divisava entre os humildes crentes: — Quem avisou-vos de fugir à cólera

Prestes a rebentar? Produzi frutos De santa penitencia, e não, vaidosos, Vos julgueis de Abraão diletos filhos! Oh! filhos de Abraão serão as pedras,

Se o Senhor decretar! D’árvore ao tronco Vejo inclinar-se o gume do machado: A planta estéril cairá por terra, Será lançada ao fogo!

— O que faremos? — Perguntavam-lhe as turbas ansiosas. — Sede puros, humildes, compassivos; Se duas vestes possuís, dai uma

A vosso irmão mendigo; Si estais fartos, Chamai-o à vossa mesa. Nunca pouse A mentira e a calúnia em vossos lábios, Nem oprimais, se poderosos fordes,

Os vossos semelhantes. Na verdade, Com água vos batizo, mas não tarda Alguém, alguém maior, cujas sandálias Indigno sou de desatar, conheço!

Esse no Santo Espírito e no fogo Vos há de batizar! — O povo insonte Enleado escutava estas palavras.

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