Musa Cristã! Desprende lacrimosa
Sobre o cotio de neve as tranças de ouro!
Arroja de teu seio as rosas brancas
E as lindas amarílis das campinas,
Que os amores colheram! Cinge a fronte
De folhas de cipreste e roxos goivos;
Deixa o leve brial, envolve o corpo
Em funerário crepe, e solitária
Debruça-te nas fragas do deserto!
Chora, e lembra as angústias assombrosas
Da morte do Senhor... Ah! se puderas,
Se puderas voar, transpor os mares,
Atravessar o Líbano e as montanhas
Rochosas de Ascalon; pousar no cimo
Do Calvário sagrado, e compungida
Beijar o duro solo, onde caíram
As lágrimas do Mestre!... Se puderas
Um raminho apanhar das tristes plantas,
Que o sangue fecundou do Deus aflito,
Do Deus agonizante!... Oh! toma a lira,
Canta como o pastor, que a natureza
Afina a voz singela! Como o nauta,
Que as saudades da pátria o estro acordam!
Como o servo que aspira a liberdade!
Como o formoso pássaro das selvas
Que não sabe por que, mas canta, e canta,
E canta até que a morte a voz lhe roube!