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1841–1875

XI

Luís Nicolau Fagundes Varela

Depois destas proféticas palavras, Caminha o Salvador, anunciando, Pelas casas dos pobres e infelizes, O reino do Senhor, e a Lei divina.

— Eis o homem de Deus, — eis o profeta, Os fariseus murmuram, eis o santo! Censura os vícios, repreende os grandes, E se aquece ao fogão dos publicanos,

Dos pecadores se recosta à mesa! Jesus deixa-os falar, depois responde: — Quem possui cem ovelhas, mas um dia Sabendo que uma corre desgarrada

Nas grandes solidões, não deixa as outras E voa a procurá-la? E quando a encontra Não põe-na aos ombros, e não volta alegre, E não folga, dizendo a seus vizinhos:

Julguei perdida minha pobre ovelha, Perlustrei o deserto, pressuroso, E topei-a por fim, ei-la em meus braços!... Oh! maiores serão do céu as festas

Por um só pecador arrependido Que volte à santa grei, do que por justos Noventa e nove que ditosos vivem! — Ouvi-me ainda, o Salvador prossegue:

Tinha dois filhos um varão preclaro, O mais jovem dos dois, gênio versátil, Louca imaginação, enfeitiçada Pelas glórias do mundo e seus deleites,

Chega-se ao nobre pai e assim lhe fala: — Dá-me a parte dos bens que me compete. Moço e robusto, rico de esperanças, Quero trilhar da vida os mil caminhos,

Sondar todos os mares da fortuna — Tristonho e pesaroso o pai os chama E com eles reparte os seus haveres. O mais velho tranquilo permanece

No bendito solar de seus maiores: O mais novo, porém, ave inconstante, Bate as asas, volteia, o ninho deixa E voa pelo mundo. Os anos passam,

Passam da mocidade os vagos sonhos, E o mancebo infeliz de erro em erro, De vício em vício tropeçando rola, E cai no lodaçal medonho e fundo

Da mais feia miséria! Os sócios torpes, Os parceiros de orgias e banquetes, Vendo estancada a fonte dos prazeres, Voltam-lhe as costas, cautelosos fogem,

Evitam encontrá-lo, arreceando Pedidos importunos. A tristeza, A nudez e a fome o pobre cercam!... Cansado de esperar melhor destino,

Suplica a proteção de rico herdeiro Que a distante casal o manda, e entrega De imundos porcos o cuidado e a guarda. Ora, pesando as cousas, refletindo

Sobre o mísero estado em que se achava, Exclama suspirando o desgraçado; — Quantos criados, quantos jornaleiros Na casa de meu pai vivem à farta,

E aqui pereço à míngua! Irei, contrito Prosternar-me a seus pés; direi chorando: Oh! meu pai! Oh! meu pai! Pequei, bem vejo, Contra Deus, contra ti! Já não mereço

De filho o doce nome... não me afastes De teus olhos, senhor, muito hei sofrido. Dá-me um pobre lugar entre os teus servos Ou entre os jornaleiros dá-me emprego!...

Firme neste propósito, caminha, Caminha resoluto e o pai procura, — Quê!... Tu voltas a mim? Oh sê bem-vindo! — Diz o nobre ancião, e alegre corre,

Estreita o filho nos amigos braços, Beija-lhe a fronte e lágrimas derrama De júbilo e prazer! — Vinde, meus servos! Vinde depressa! — Ordena alvoroçado,

— Tirai-lhe estes andrajos e vesti-lhe Os mais belos vestidos que encontrardes! Lavai-lhe os pés molestos, e calçai-lhe Macios borzeguins, ponde em seu dedo

Um precioso anel enriquecido Do mais fino lavor!... Ide, vós outros, Escolhei dentre o gado, o mais formoso, O mais nédio novilho que retoiça

Por esses vastos campos, e matai-o, Trazei-o sem demora! O dia de hoje Será dia de folga e regozijo: Era morto meu filho, e ei-lo que volta

Redivivo a meus braços. Longas noites, Longas noites chorei, crendo-o perdido, E Deus mo restitui! Vamos, folguemos! E corramos um véu sobre o passado!...

Ao descair da tarde, o irmão mais velho Voltando do trabalho, os brindes ouve, Ouve os cantos alegres, vê festivas A casa e as dependências. — Porventura

Sonho, ou desperto estou? — surpreso exclama, E para, chama um servo, a causa indaga Dessas doces canções, desses folguedos. — Pois não sabeis? Correi, lhe diz o servo,

É vindo vosso irmão que longe andava, E vosso pai festeja-lhe a chegada. — Ouvindo esta notícia, abaixa o moço A cabeça e suspira; tristemente

Volta sobre seus passos. Entretanto, O pai desce a buscá-lo, e roga, e pede Que o acompanhe à mesa do banquete. Ele, porém, responde: — há tantos anos,

Que zeloso e fiel vos sirvo e ajudo, Nunca me destes um cabrito, ao menos, Que eu pudesse ofertar a meus amigos!... Mas depois de uma vida vergonhosa,

Nodoado de vícios, miserável, Vem meu irmão e o recebeis contente; Matais, para o brindar, o mais nutrido, O mais belo novilho destes campos!...

Que prêmio pois mereço, eu que trabalho, E nunca me afastei do bom caminho? Mas o pai lhe responde: — Em minha casa Sempre viveste, e satisfeito vives,

Tudo o que tenho é teu, e nossos servos Entre nós ambos distinção não fazem; O que mandas, eu mando; o que desejas, Desejo que se cumpra. O que te falta,

Que também não me falte? O que te sobra, Que também não me sobre? Dize, filho! Mas teu irmão por morto eu reputava! O Senhor o guardou e no-lo envia;

Folguemos, pois, nossa alegria é justa.

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