Porém, corria o tempo; duas vezes Já o Senhor chamara seus amigos, E os míseros dormiam! Pouco e pouco Se aproximava o instante pavoroso.
À medida que a areia se escoava No relógio fatal, recrudesciam As agonias dessa noite horrenda. O íntimo lutar cansara o peito
Do Redentor do mundo, esmorecido Inclinou a cabeça, e os belos anjos De alvinitentes vestes, que o cercavam, Amparavam-lhe o corpo. Um suor frio
Como o suor da morte, — copioso, Como o do padecente que se estorce Nas mais feias torturas, que inventaram Sábios cogitadores de suplícios,
Correu-lhe pelos membros doloridos! Os próprios imortais estremeceram Cheios de dó profundo, vendo o sangue, E as grossas gotas d’água que manavam
Dos poros de seu Deus, e lhes tingiam De purpura sombria as alvas plumas, E que regava a terra, a terra ingrata, Partilha de Satã, cujas misérias
Só reclamam eternos sacrifícios! — Alma, sopro do céu! Clara centelha Do espírito infinito da verdade! Vives, e eterna viverás! Sê forte!
O caminho do bem é teu caminho, Teu barco a Igreja, teu piloto o Cristo! Levanta-te e não temas, se caíres Ele te estenderá segura destra!
Se nada foras, não viera ao mundo, Se nada foras, não sofrera os transes Dessa noite cruel! Se nada foras, Não assombrara o mundo e a imensidade
Com seu trágico exemplo o seu martírio!
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