Era alta noite, e os pobres campesinos,
E os mendigos da aldeia, se apinhavam
Da casa de Simão no estreito pátio.
Muitos doutores, fariseus, e escribas,
Vindos dos arredores, curiosos
Se acercaram de Lázaro, e aterrados
Murmuravam baixinho: — Ei-lo! seu rosto
Conserva ainda a lividez das tumbas!
Ei-lo, ressuscitou! — É seu fantasma, —
Diziam outros, apalpai-lhe as vestes,
Tocai o frio corpo, e tênue fumo,
Ou branca névoa de invernosa aurora
Se desfará depressa. — Mais afoito
Adianta-se e brada um velho escriba:
— Lázaro d’onde vens? D’onde saíste?
Pelo Deus que adoramos te conjuro,
Deixa o mistério que te envolve, fala! —
Houve, um momento de mortal silêncio,
Ninguém ousava se mover, o medo
Tolhia o respirar aos assistentes.
Então qual muda estátua a cujos membros
Por milagre do céu descesse a vida,
Voltou Lázaro o rosto descarnado,
Onde em cheio bateu a luz formosa
De azinhavrado, antigo candeeiro.