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1841–1875

X

Luís Nicolau Fagundes Varela

Outra vez no Pretório entrou cercado, Depois de injúrias tantas e flagícios, Lividamente belo, o Deus cativo. — Inda sustentas, — perguntou Pilatos,

Que és o Rei dos Judeus? — Tu o disseste! — Responde o Salvador, firme, e sereno. Ora, o governador que recebera O triste aviso da querida esposa,

Se esforçava em buscar propícios meios De salvar o Senhor. Ao pensamento Acudiu-lhe um arbítrio: era oriundo Jesus da Galileia; essa província

Ao domínio de Herodes pertencia, E pois mandou Jesus ao grande Herodes, Que o ouvisse e que julgasse. — Curioso O rei o recebeu, — extensas horas,

Atento o interrogou em seu palácio. E ordenando, por fim, que lhe vestissem Uma túnica branca, o despediu. Nem mesmo Herodes o julgou culpado!

Então, o Salvador voltou de novo Ao sinistro Pretório. O sol brilhava Dourando os altos cerros do Oriente; Pilatos reuniu logo os doutores,

Os anciãos do povo, os sacerdotes, E estas palavras disse memoráveis: — Vós acusais o Mestre Nazareno De fazer sedições, turvar do povo

O íntimo sossego, a consciência, E violar da Lei os sãos preceitos; Ora, o interroguei de mil maneiras, E não lhe achei o mínimo delito.

Inquiri testemunhas, que mentiram De um modo vergonhoso. — Duvidando Da clareza e valor de meus juízos, À decisão de Herodes sujeitei-me,

E eis Herodes me envia o desgraçado, Que declara inocente! — Conseguistes Do feroz Barrabás o livramento: O que farei de Cristo? — Crucifica-o!

Respondem prontamente os sacerdotes. — Crucifica-o! — vozeia o povo ignaro, Apinhado no pátio e nas calçadas. Então Pôncio Pilatos levantou-se,

Pediu um vaso d’água, e lento e mudo, Pôs-se a lavar as mãos; depois, volvendo Severo olhar aos padres que o cercavam: — Sou inocente deste puro sangue

Que se vai derramar, não tenho parte No martírio do justo; eu vo-lo entrego. — Disse, e afastou-se triste do Pretório. — Reverta sobre nós e nossos filhos

O sangue que a lei pede, e persistente Procuraste poupar! — responde o povo. A missão de Pilatos era finda.

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