— Se uma ilusão não és — exclama Pedro, Se não és um espectro vagabundo Que nos vem assombrar, senão o Mestre Que servimos e amamos, manda, ordena
Que forte como estás sobre estas águas Eu mova-me também, também caminhe E me acerque de ti! — Vem, pois, eu quero, Responde o Salvador, mas não duvides! —
Pedro agarra-se à borda, inclina o corpo, Galga as tábuas delgadas, cauteloso Estende os pés, e achando firme pouso Desembaraça as mãos, e ei-lo contente,
Surpreso caminhando sobre as ondas!... Mas, desgraça! Uma rábida lufada De subitâneo vento silva e passa, Atirando-lhe ao rosto a fria escuma
Das águas agitadas; a lagoa. Até então serena e transparente, Torna-se negra, encrespa-se, sacode Como um brinco infantil a frágil barca!
Pedro para, estremece, enruga a fronte, E tomado de horror, sente-se abrirem Sob seus pés as vagas mugidoras, E quase a perecer, grita: — Salvai-me!
Senhor! salvai-me! que me afogo! — e estende Para Jesus os braços convulsivos. — Criatura sem fé! — por que duvidas? — Lhe diz o Salvador; vem, não te assustes. —
E trava-lhe da mão, põe-no a seu lado, E de novo caminham sobre as águas Até chegar à barca. — Oh! na verdade, É o Filho de Deus!... exclamam todos
Que este milagre viram; e aterrados, À voz do Salvador, erguem-se prontos, Tomam dos remos, a lagoa fendem, E sobre as ondas resvalando asinha
Pouco tempo depois à praia abeiram.
Cookies on Poetry Cove