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1841–1875

VIII

Luís Nicolau Fagundes Varela

Mas, a inveja roaz, o ódio cego, Verdadeiros demônios, rebramaram Nos corações dos fariseus protervos; Todo o veneno da tartárea estância,

Verteu Satã nas veias dos escribas, E no seio dos ímpios sacerdotes. — Em que pensamos nós? Dizem raivosos, Que deixamos em paz o Nazareno

Pregar doutrinas, operar milagres, E seduzir a plebe inconsciente? O que é feito de nossa autoridade? Onde está nossa força? Por ventura,

Seguindo a multidão que nos despreza, Iremos nós também beijar as plantas Do filho do mesquinho carpinteiro? Então falou Caifás, hebreu soberbo,

Pontífice arrogante, ergueu-se e disse: — Nada entendeis. Obrais como insensatos. Desconheceis as práticas dos sábios. Não refletis que a salvação do povo

De sangrenta lição depende apenas? Que é necessário que pereça um homem? Que a nação abalada não sucumba? Que o tempo pede sangue, e a lei decreta

Que neste caso se derrame sangue? — Disse... e no pensamento de seus sócios A morte do Senhor foi resolvida! Tinha profetizado um dos algozes!

Cumpria que sofresse o grande Mestre! Que esgotasse de um trago a taça negra Dos terrestres martírios! Que gemesse Ao peso imenso da maldade humana!

Que beijasse, ferido, as duras pedras Daquele escuro chão, não pelo povo Ingrato de Israel, mas pelo mundo, Pelo porvir das gerações cativas!

Pelo triunfo eterno da verdade!... Na região do infindo desespero Satanás exultou. Ao feio riso, Porém, daqueles lábios requeimados

Sucederam esgares pavorosos! Nas hórridas cavernas ressoaram Furibundos mugidos. — Oh! miséria! Bradou, se retorcendo ébrio de raiva!

— Miséria!... — nas angustias do suplício O Cristo morrerá. Porém que importa Se perdoa, expirando, a seus verdugos! Se lava com seu sangue os crimes todos

E os perversos arranca-me das garras! Se desce a meus domínios triunfante Trazendo a luz, talvez, e almo conforto Onde jamais sorrira uma esperança!

Miséria! — E debatia-se convulso No circo abrasador das próprias chamas.

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