Não longe do Pretório, iluminada Pelos flavos clarões do sol nascente, Aparecia a casa de Pilatos, Alva, risonha, erguida entre ciprestes,
Coberta de cimalhas caprichosas, Frisos sutis, colunas de alabastro, E arejadas soteias. Tão festiva Dir-se-ia a visão de alto castelo
Pelos gênios da aurora edificado Nas regiões longínquas do Oriente, Onde termina o mar e o céu começa. Os mansos passarinhos gorjeavam
À sombra dos vergéis, as auras frescas Soerguiam as trêmulas cortinas Do belo camarim, onde entre flores, Mimosa flor também, sobre almofadas
Lânguida descansava a linda esposa Do opulento pagão. Seus pensamentos Tristes deviam ser, que os rubros lábios Cerrava convulsando, e dentre os cílios
Negros, como a penugem luzidia Das escuras abelhas da floresta, Rebentavam as lágrimas sentidas. Filha airosa da Itália sonhadora!
Rola saudosa das alegres veigas Dos campos de Lavínia! Que pesares Ferem-te o coração? Mas, de repente, Um profundo gemido angustioso,
Os seios lhe agitou; a nobre dama Levantou-se de um salto, branca e fria, Como a estátua de mármore pousada Em brônzeo pedestal junto da porta;
Correu para a janela, as trancas soltas, O olhar afogueado. Então, ruidosa Bramia a onda popular na praça, Mil vozes discordantes repetiam:
— Desatai Barrabás! Deixai-o livre! — Compreendeu a esposa de Pilatos A sinistra questão. Chamou um pajem, E mandou ao Pretório a toda a pressa.
— Vai, dize a teu Senhor, ampara o justo, Que revelou-me um sonho pavoroso A pureza divina de seus atos, Das intenções celestes a inocência,
A gloriosa origem de seu gênio! — O servo obedeceu. Nesse momento Uma nuvem trevosa e carregada Cobriu a luz do sol, — rijo nordeste
No ledo camarim entrou silvando, Tremeu o pavimento, e as belas flores Que pendiam das jarras primorosas Caíram desfolhados no tapete...
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