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1841–1875

VIII

Luís Nicolau Fagundes Varela

— Quão formosa e louçã, quão prazenteira, Reclina-se entre fortes baluartes E risonhos vergéis, a nobre filha Do argonauta Cristão, a soberana

Dos encantados mares do Ocidente! Ao gesto criador do herói preclaro Os broncos alcantis estremeceram. E os gigantes horríficos do abismo

Rasgaram, praguejando, as penedias Para dar-lhe um asilo! As verdes ondas Engolfaram-se alegres petos vales, Osculando as colunas florescentes,

Que sobre as águas plácidas avultam, Hoje amenos jardins, leitos de fadas, Ninhos de amores e mimosos berços Enfeitados de lúcida escumilha.

Porém, cópia fiel, fiel transunto Das tradições escuras dos Helenos, Os titãs atrevidos se amontoam Ao redor do meandro cristalino

Erguendo as negras frontes, requeimadas Pelo fogo do céu, e as mãos tremendas, Armadas de rochedos monstruosos, Procurando escalar o vasto Olimpo!...

Na larga entrada do soberbo empório O Adamastor da América repousa À luz do sol brilhante, que lhe aquece A cabeça medonha, escaveirada,

E o dorso horrendo, onde resvala o raio Nos dias de tormenta: audaz colosso, Robusto velador, que ao longe assombra Os gênios do Oceano, e brada ao mundo:

— Em nome do direito e da justiça, Podeis entrar no templo do futuro, Sacrificar ao Deus da liberdade! — Oh! como brinca mansamente o vento

Nos leves galhardetes dos navios Das mais longes nações, que ávidas pedem À terra da abundância e da riqueza: — A pedra irmã da estreita radiante,

O ouro que do sol o brilho imita; A madeira que a púrpura rebaixa; O fruto que alimenta e que deleita; A raiz que entorpece os sofrimentos;

O mamífero, o inseto, a flor, a folha, O pássaro de voz melodiosa, De penas multicores; novos seres, Novos primores que os tesouros formam

Das artes, da ciência e do comércio, E também da vaidade tantas vezes!... Ah! não é tudo, não é tudo ainda! O que minha alma de delícias enche

Nesta divina previsão da glória, É o império da lei, — a majestade Suprema da justiça; a luz serena E firme da verdade, clareando

A escola, os templos e os degraus do trono! A beleza moral! Que importam festas, Pompas, folguedos, mentirosas galas, Quando as instituições precárias brilham

Como as estátuas frias de Pompéia, Que desfazem-se ao sopro das aragens! Mas, entre o solo e o povo resplandece O sinal da aliança, a nívea pomba,

Sustendo o verde ramo de oliveira, Descansa aos pés do soberano ilustre Que há de elevar o templo do futuro, Arca sublime das grandezas pátrias,

E reviver o século de Augusto No ciclo de ouro da brasília história!... Oh! meus irmãos! A senha da partida, O grito de Asrael, soa tremendo

A meus frágeis ouvidos! Vejo as sombras Gloriosas dos justos que passaram! Ouço a voz de meus santos companheiros Que do empíreo me chamam, jubilosos!

Francisco Xavier, mártir das índias, Nóbrega exímio, cândido Aspicuelta, Paiva incansável, maioral querido Do rebanho Cristão de São Vicente,

Luiz da Grã, Braz Lourenço, Antônio Pires, Todos belos e fortes, animados De zelo fervoroso, e tão depressa Arrebatados pela fria morte

Às tabas convertidas que os pranteiam! Oh! que felizes são! Que luz divina Circunda-lhes as frontes, enastradas De rosas imortais e lírios pulcros!

Que celestes amigos os rodeiam Na suprema mansão! Eis o Batista, O Cristo precursor do Cristo eterno, Pedro, a pedra angular da santa Igreja!

Paulo, vencido pelo grande arcanjo! Quantos outros, meu Deus!... — A voz sumiu-se No seio enfraquecido do profeta. As pálpebras cerraram-se tranquilas,

Os lábios entreabriram-se, e um sorriso Ditoso, da criança que adormece, Deixou passar o alento derradeiro

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