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1841–1875

VII

Luís Nicolau Fagundes Varela

Vai alta a noite. As pálidas estrelas, Medrosas da manhã que se aproxima, Apagam-se no azul do firmamento. Tudo repousa... Não! Pelos caminhos

Ingratos do deserto, erram perdidos Muitos pobres romeiros; muitos nautas Vogam sem rumo na soidão dos mares! Muitas frontes vigiam suarentas

Sobre a mesa do jogo, ou sobre os livros, Sobre o leito de angústia, ou sobre o berço Da infância inconsciente! O sono amigo, O sono irmão da morte, a poucos seres

As doçuras concede do descanso!... Descem do espaço os brancos nevoeiros, E sobre o monte, o vale, a praia e o lago Espalham lentamente os véus fugaces.

Esperando que a luz da madrugada Clareie a terra e os seres reanime, Os sócios do Senhor deixam os remos, Ateiam fogo sobre um grande vaso

De argila recozida, e reclinados Sobre as pranchas do barco flutuante, Se aquecem conversando. Já, de longe, Nos pátios dos casais das verdes margens

Soltam a voz os vigilantes galos, Anunciando a aurora que não tarda; Já o cansaço e o sono os olhos turvam Dos singelos amigos, e adormentam

Os membros fatigados, quando um grito De assombro e de terror os chama à vida. Quem brada assim? Foi a ilusão de um sonho, Ou imprevisto mal que ao peito humano

Esse grito arrancou!... — Ah! és tu, Pedro! Pedro! Pedro! que tens? — perguntam todos. Mas Pedro não responde, branco, imóvel, Fixos os olhos, estendido o braço

Para o meio do lago: arqueja e treme. Todas as vistas se dirigem logo Para o ponto indicado, e todos soltam Um pavoroso grito. — Quê! amigos,

Diz uma voz suave, porventura Posso causar-vos medo? Ao frio susto A surpresa sucede: — Mestre! Mestre! Sois vós! — Eu sou, não receeis, quedai-vos.

Qual em fino tapete ou verde relva, Firme, de pé, o rosto resplandente, Jesus caminha sobre a lisa face Do lago adormecido. — Ao vê-lo calmo,

Meio vendado pelas brancas névoas, Dir-se-ia que as águas cristalinas Tinham-se congelado, ou braços d’anjos Invisíveis sustinham sobre o abismo

Seu puríssimo corpo. As longas vestes Na fria superfície enxutas roçam, Nem um respingo molha-lhe as sandálias Que fundos frisos sobre as águas deixam

A cada movimento; auras suaves Agitam-lhe os cabelos mansamente E nas dobras do manto alegres brincam; Um meigo olhar, um cândido sorriso

Animam-lhe o semblante gracioso.

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