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1841–1875

VII

Luís Nicolau Fagundes Varela

Senhor! Lavaste os pés a teus amigos, Deste-lhes força e ânimo e virtude Para seguirem da verdade as trilhas! Quem meus pés lavará? Quem a meu gênio

Dará brilho e vigor? Quem da vertigem Preservará meu cérebro? Eis-me fraco, Sem estro, sem saber, sem guia e mestre, Meu Deus! Acompanhando-te nos transes,

Desse penar imenso, onde empenhada A eternidade abraça-se à matéria! Jesus! Dá-me valor! Lava minha alma, Lava-me a lira, a inspiração, a pena,

Como lavaste os pés a teus amigos! Faze que eu não fraqueje, não tropece! Mas, se, embora de rastros, arquejante, Vencido pela dor e pela febre,

Eu tenha de seguir-te, oh! seja feita A vontade de Deus, bendita sempre!... No monte das antigas Oliveiras, Não longe do Cedron, em ermo sítio,

Rude e saibroso como o frio leito De passada torrente, onde bravejam Das chuvas hibernais as águas turvas, Parou Jesus, e disse aos companheiros:

— Ficai aqui, não caminheis mais longe, Contrito, a sós comigo, ali na sombra Quero elevar minha alma atribulada Ao Padre Omnipotente, e vós, amigos,

Orai, orai também!... Sinto no peito As angústias da morte e seus horrores! — Nunca tanta tristeza revelara A voz suave do divino Mestre!

As angústias da morte!... Por ventura Podemos nós medir a dor imensa Das angústias de um Deus? Nós, miseráveis, Que o mais leve sofrer nos aniquila?

Porém, deixando os mudos companheiros Embrenhou-se Jesus pelos silvados Então cobertos de odorosas flores, Chegando perto de uma lapa escura,

Lançou o manto às urzes, e prostrou-se Cozido o rosto ao chão, áspero, seco, Orando com fervor. Desde esse instante O mistério sangrento começava.

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