Meia noite! Nos altos candelabros Desmaiavam as luzes, a tristeza Cerrava os corações. — Éramos doze, Murmura um dos amigos assombrado,
Éramos doze, sem contar o Mestre, — Judas se retirou e... doze somos! — Nesse momento um trêmulo gemido Soou junto da mesa, o santo cálice
Oscilou lentamente, desprendendo Aguda vibração... branca figura, Como a de Samuel na negra furna Da sibila de Endor, bela e horrível,
Ergueu-se vagarosa junto a Cristo. — Senhor! falou, — Senhor, em idos tempos, Por vossa vinda suspirei debalde! Entre rudes pagãos, fui o primeiro
Que a divina unidade expôs ao mundo, Que do Deus Uno e Trino a glória viu! Mártir da fé, baixei à sepultura Sem receber as águas do Batismo!...
Hoje, que dás a salvação e a vida À humanidade escrava do pecado, Quebrei da morte o fúnebre sigilo, Vim o sangue beber, comer a carne,
A carne e o sangue do Cordeiro eterno! Glória! Glória ao Senhor! abertas vejo Do Paraíso as portas luminosas! — — Piedoso varão, exímio Sócrates,
Sábio como Moisés, íntegro e justo Como o grande Abraão — Jesus exclama, Voa ao seio de Deus! Recebe o prêmio De teu sublime, heroico sacrifício! —
Um fulgido clarão de alva celeste Iluminou a sala, e a sombra ilustre, Como outrora o Senhor, transfigurada, Deixou a terra, os homens, e perdeu-se
Nas regiões do éter!... — Levantai-vos, Disse Jesus aos frios companheiros, As horas do martírio se aproximam!... Simão! Simão! continuou, fitando
O velho pescador, — bem como o trigo Satã pediu que joeirasse a todos, Mas eu roguei por ti, que não vacile E nem te falte a fé — Senhor, descansa,
Pedro lhe respondeu, onde estiveres Eu estarei também constante e firme, E onde penares, meu divino Mestre, Eu penarei também: qual nesta vida,
Também na morte me verás contigo! — Ah! entretanto, o Salvador prossegue, Antes que solte a voz o galo esperto, Me negarás três vezes, e hoje mesmo!
E voltando-se aos outros companheiros, — Quando vos disse: viajai sem bolsa, Sem sandálias e alforjes, por ventura Alguma cousa vos faltou? — Não, Mestre,
Lhe responderam todos. — Pois, agora, Tome, quem os tiver, bolsa e alforjes, E quem não os tiver, venda os vestidos, Compre logo uma espada!... — Uma não basta,
Temos duas — disseram-lhe. — Calai-vos! Continuou Jesus: não se alvorocem Os vossos corações, as vossas almas; Credes no Deus eterno e omnipotente?
Pois crede em mim também. Antes de todos, Na casa de meu Pai vou preparar-vos Deliciosos cômodos, mais tarde Voltarei a buscar-vos — Oh desgraça!
Apropínquam-se as horas do martírio! Vão cumprir-se as palavras dos profetas! — Calou-se Cristo, e lento retirou-se.
Cookies on Poetry Cove