Sobranceiro aos manejos da calúnia, Aos enredos da inveja, às ameaças Dos desleais, protervos sacerdotes, Na divina missão, Jesus prossegue,
Arrostando os bulcões da tempestade, Que seus dias terrestres assoberbam. Era o domingo consagrado à festa, Com que celebra o povo Israelita
As árduas provações de seus maiores Nas planícies do Egito. As verdes silvas, As balsas florescentes dos outeiros Se arriavam de pérolas e opalas
À luz do sol nascente; alegres bandos De alvas cegonhas, de faisões travessos, Brincavam pelas margens dos arroios, Encantados do aroma e da frescura,
Que as serenas campinas inundavam. Como as aves, contentes, como as flores, Louças e donairosas, pelos vales Corriam da Judeia as lindas filhas,
Cheia a imaginação de amores fáceis, E, como sempre... o coração vazio. Ora, naquele tempo, descansava Rodeado dos seus o excelso Mestre,
Em saudoso retiro junto à fralda Da montanha das velhas Oliveiras; E como visse as buliçosas turbas Que atravessavam lépidas os prados
Demandando a cidade — a dois amigos Disse, apontando ao longe a aldeia humilde, Entre viçosos pâmpanos oculta: — Ide àquele lugar; vereis, entrando,
À vossa destra, presa uma jumenta, E ao lado dela um tenro jumentinho, Trazei-mos sem receio. Se, contudo, Alguém vos perguntar quem vos envia,
Respondei — o Senhor: — no mesmo instante Vos deixarão voltar. Logo partiram Os sócios de Jesus a largos passos, E o divino mandado executando,
Trouxeram sem trabalho e sem tardança Os mansos animais. — Predito fora Pelo antigo profeta este sucesso, E as menores, mais leves circunstâncias,
— Pondera o escrupuloso missionário — Ouvi a predição: — Direi à filha, À filha de Sião, eis se aproxima Sobre rude jumenta, vagarosa,
O vosso grande rei. — Porém, chegados Os servos do Senhor, os grossos mantos Ao dorso do animal prestes lançaram, Onde sentou-se Cristo, e pensativo
Seguiu caminho da cidade eterna. Vingava o sol na cúpula celeste O meio de seu giro diuturno, Quando a Jerusalém, não dos profetas,
Não de Davi, o bardo soberano, De Salomão o sábio, mas a triste Jerusalém dos Césares, — ao longe, Apareceu na fímbria do horizonte,
Aos olhos do Senhor; ondas de povo Corriam dos casais ao seu encontro, Ondas de povo se agitavam ledas Na pedregosa estrada que trilhava,
E seguiam cantando almos louvores.
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