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1841–1875

VI

Luís Nicolau Fagundes Varela

O fulgido clarão da estrela d’Alva Derrama-se no espaço, a rósea aurora Pouco a pouco adelgaça o véu cinéreo Que flutua nas portas do Oriente;

Áureos, fulvos listões, faixas purpúreas, Brancas, argênteas franjas, atravessam As regiões festivas, onde assoma Cada dia mais forte em seus domínios

O rei das estações. No grande pátio Da casa de Caifás, sempre tristonho, Meditabundo sempre, Simão Pedro Vela perto do fogo; os ociosos

Continuam as práticas estultas, Os soldados estiram-se rosnando Sobre as lajes do chão; mas, uma escrava Que desce nesse instante ao peristilo,

Para, surpresa, atenta considera O pobre pescador: — Bem o conheço, Diz a vil criatura a seus parceiros, É este um dos amigos, e o mais velho

Do mestre nazareno: — Oh! tal não digas! Exclama o Galileu amedrontado, Nunca lhe ouvi a voz, nem vi-lhe o rosto! — Porém, Malco aí estava, o servo Malco,

A quem Pedro ferira. — Que! tu negas? Pois não eras no Horto? Não te lembras Que me cortaste a orelha? — açode o ímpio. — Estranhas cousas, lhe responde Pedro,

Falsas proposições dizes, amigo; Nada sei do que falas, nem do Mestre Que os sacerdotes julgam! — Como treme O pescador astuto! Companheiros,

Informa um dos criados, muitas vezes Entrei no seu batei, estou bem certo; Depois não mais o vi; por fim, nos campos, E nas praças o achei unido aos sócios

Do filho de José. — Não é verdade! Exclama Simão Pedro! — Então, prodígio! A poucos passos, num sombrio canto Dos aposentos térreos do palácio,

Bateu o galo fortemente as asas E a voz soltou vibrante e prolongada. Simão estremeceu, — volveu os olhos Para as altas janelas, e entre as grades

Viu, ao frouxo clarão da triste aurora, A figura serena e graciosa De seu divino Mestre. A consciência, Abalada e ferida fundamente,

Despertou as cansadas faculdades Do singelo discípulo; os remorsos Acerbos e pungentes, a vergonha De uma fraqueza quase que perfídia,

A lembrança da culpa, o horror da pena, Como agudos punhais dilaceraram O coração do mísero: os soluços Embargaram-lhe a voz, e quentes lágrimas,

Lágrimas puras de alma arrependida, Orvalharam-lhe o rosto e as barbas brancas.

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