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1841–1875

VI

Luís Nicolau Fagundes Varela

O sol oriental vence as alturas, E dissipa das úmidas colinas Os véus do nevoeiro; os loiros raios, Atravessando as frestas das janelas,

Penetram no aposento lutuoso Do sábio agonizante, onde crepitam Dois pardacentos, funerários círios. — Esta importuna claridade ofendo

As pupilas do Mestre, — alguém murmura, Cumpre tolhe-la, e já. — Não, meus amigos! — Exclama vivamente o moribundo. — Não me furteis o gozo derradeiro

De ver a luz brilhante que aviventa Estes belos sertões! Pura e festiva Deixai-a refletir sobre meus olhos, E sustar um momento o frio sopro

Que em minha veias infiltrou a morte! Arredai estas tochas pavorosas, Abri depressa as portas e as janelas, Quero ver as campinas dilatadas,

Os silvados em flor, os céus profundos, A luz, a luz, a imagem da esperança! A condição suprema da beleza! A vida do universo, o gênio, a glória

Desse grande poema arremessado Pelo Deus Criador e Onipotente Nos mistérios sublimes do Infinito! A luz! A luz no berço e no ataúde!

A luz no coração, na inteligência! A luz no céu, na terra, no mais fundo Da consciência humana! — Assim dizendo, Senta-se, a custo, o pálido profeta

Sobre o leito mesquinho. Os seus desejos São decretos sagrados nessas horas. Num volver de olhos erguem-se os amigos E franqueiam à luz e às auras mansas

O tristonho e paupérrimo aposento. — Como é límpido o céu! Como refulge, Ao dourado clarão do sol do estio, Ao longe o vasto mar! Como cintilam

As pérolas do orvalho, penduradas Das verdes folhas dos murtais viçosos! — Exclama o venerando missionário. — Oh! não choreis, irmãos, que sinto na alma

A paz divina que precede a aurora Da verdadeira vida! Alva sublime, Alva celestial de eternos raios Cobre os campos, os prados e as florestas

De riquezas e pompas inefáveis!... Gênio da natureza, eu te estou vendo! Pensas, e teu pensar sustenta os orbes, Conduz os ventos, equilibra os mares,

Alenta a humanidade sofredora, E a matéria sujeita à inteligência Dos levitas felizes que te servem! Sentes, e geme a rola na espessura,

Chora o mastim à porta de seu dono, A leoa e a pantera dos desertos Sucumbem, defendendo os tenros filhos, E a mulher do pastor esquece as mágoas

Da trabalhosa vida, acalentando, Pródiga de sorrisos e meiguices, O fruto de seus cândidos amores!... Mandas, e o vendaval sacode as brenhas,

Abre-se a terra, somem-se as cidades, O oceano se afasta, e deixa as praias, E vai rugir além!... Oh Natureza! Ninguém te viu como te vejo agora! —

Seguem-se alguns momentos de repouso Depois destas palavras. O profeta Contempla extasiado os vastos campos, Os céus serenos, os palmares frescos,

E a cinta azul dos mares sossegados. Nas solidões imensas do horizonte Reina fundo silêncio, ao longe apenas Canta à beira do rio a patativa,

E as aragens sussurram mansamente Nas balsas odorosas. Nem um brado De errante caçador nos ermos campos! Nem um riso infantil, um débil grito,

O latido de um cão junto das sarças; Tudo é mudo. Nas rústicas varandas Do triste Presbitério, o povo chora; No retiro do sábio os sacerdotes,

E os anciãos da aldeia, possuídos Dessa fascinação da Eternidade, Que paralisa as forças da matéria E purifica o espírito, contemplam

O semblante tranquilo e venerando Do exímio lidador, em cujos traços A beleza da estátua consagrada Sucede à cor enferma, às feias rugas,

Herdadas do trabalho e das vigílias.

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