Nas nuvens inflamadas do Ocidente
Mergulhava-se o sol, — quente era a terra,
E os píncaros dos montes escabrosos,
E as grimpas dos salgueiros e ciprestes,
Ao purpúreo clarão do céu do estio
Pareciam de sangue borrifados.
Um longínquo trovão, rouco, sinistro,
Tredo como o bramir das grandes onças
Nas amplas furnas de fragosas serras,
Soava nas extremas do horizonte.
Nem uma leve aragem pelos campos!
Nem o piar de um pássaro nas frondes
Dos bastos olivais! Nem o balido
De uma ovelha medrosa nos outeiros!...
Então Martha parou mostrando a gruta
Onde jazia o irmão: — Eis o sepulcro,
Senhor, de vosso amigo! — Ardente pranto
Corria-lhe dos olhos; — arredada,
Maria soluçava entre os arbustos.
Bem no fundo da lapa cavernosa,
Frio abrigo das aves agoureiras,
Avultava entre lúgubres rochedos
O túmulo de Lázaro. Na sombra,
Como um gênio cativo, murmurava
Oculto veio d’água; sobre a lousa
Cruzava-se agitando as asas frouxas
Um turbilhão de estriges e morcegos,
Híbridos filhos dos trevosos antros,
De lado a lado esverdeadas penhas,
Broncos pedaços de granito escuro
Alongavam-se, rudes, como os dorsos
De feios crocodilos que guardassem
Furna de pavorosos malefícios.