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1841–1875

V

Luís Nicolau Fagundes Varela

No palácio do sumo sacerdote, No formoso salão de alvas colunas, Onde os graves negócios se decidem Concernentes à lei, plácido e belo

Como o sereno, cândido luzeiro Que precede a alvorada, entre os negrumes Precursores fatais da tempestade, Apareceu Jesus; firme e seguro,

Radiante de graça e de inocência, Caminhou para o estrado, onde orgulhoso, À sombra de um dossel de rubra seda, Em dourada cadeira pontifícia,

Descansava Caifás. Fundo silêncio Reinava no sacrílego auditório. Caso intrincado, sério e não previsto Apresentou-se então ao pensamento

Do príncipe cruel. Só competia Ao governo de Roma e seus prepostos Dar sentenças de morte: a lei expressa Não deixava lugar a falso arbítrio.

Que julgar? Que fazer? Forjar um crime, Revesti-lo de horrendas circunstâncias, O imputar ao Senhor! — Cem testemunhas, Malvadas umas, cobiçosas outras,

Em auxilio dos ímpios acudiram. Mas, os pios varões, retos juízes, Pontífices ilustres, que buscavam O justo condenar, — brandos agora,

Por demais complacentes, despediam, Depois de convencidos da calunia, Profanadores vis, monstros perjuros, Que zombavam de Deus e da justiça!

Oh! cegueira da inveja! Oh mal sem cura! Entretanto, dois sábios publicanos, Dois consócios de Judas, o precito, Dirigiram-se ao sumo sacerdote:

— Nós o ouvimos, Senhor, junto do templo Deste modo fatiar: — Tenho poderes Para arrasar o templo, se o quisesse, E depois em três dias, mais seguro

Levanta-lo outra vez! — Nestas palavras, Era a ressurreição que anunciava O Redentor do mundo; era seu corpo O templo que das sombras mortuárias

Feliz ressurgiria! — A feia intriga Silvava à sombra da verdade santa! — Então disse Caifás: — o que respondes? Tu bem vês que te acusam. — Mas o Cristo

Sacudiu a cabeça tristemente, Encarou, suspirando os delatores, E conservou-se mudo. Urgia o tempo, Convinha abreviar o atroz processo,

Achar um vão pretexto, um qualquer meio, De consumar o infausto sacrifício. Retirou-se Caifás. Desprotegido Ficou Jesus, sozinho exposto à sanha

Do vulgacho grosseiro, e às zombarias Dos depravados, ímpios quadrilheiros.

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