No palácio do sumo sacerdote, No formoso salão de alvas colunas, Onde os graves negócios se decidem Concernentes à lei, plácido e belo
Como o sereno, cândido luzeiro Que precede a alvorada, entre os negrumes Precursores fatais da tempestade, Apareceu Jesus; firme e seguro,
Radiante de graça e de inocência, Caminhou para o estrado, onde orgulhoso, À sombra de um dossel de rubra seda, Em dourada cadeira pontifícia,
Descansava Caifás. Fundo silêncio Reinava no sacrílego auditório. Caso intrincado, sério e não previsto Apresentou-se então ao pensamento
Do príncipe cruel. Só competia Ao governo de Roma e seus prepostos Dar sentenças de morte: a lei expressa Não deixava lugar a falso arbítrio.
Que julgar? Que fazer? Forjar um crime, Revesti-lo de horrendas circunstâncias, O imputar ao Senhor! — Cem testemunhas, Malvadas umas, cobiçosas outras,
Em auxilio dos ímpios acudiram. Mas, os pios varões, retos juízes, Pontífices ilustres, que buscavam O justo condenar, — brandos agora,
Por demais complacentes, despediam, Depois de convencidos da calunia, Profanadores vis, monstros perjuros, Que zombavam de Deus e da justiça!
Oh! cegueira da inveja! Oh mal sem cura! Entretanto, dois sábios publicanos, Dois consócios de Judas, o precito, Dirigiram-se ao sumo sacerdote:
— Nós o ouvimos, Senhor, junto do templo Deste modo fatiar: — Tenho poderes Para arrasar o templo, se o quisesse, E depois em três dias, mais seguro
Levanta-lo outra vez! — Nestas palavras, Era a ressurreição que anunciava O Redentor do mundo; era seu corpo O templo que das sombras mortuárias
Feliz ressurgiria! — A feia intriga Silvava à sombra da verdade santa! — Então disse Caifás: — o que respondes? Tu bem vês que te acusam. — Mas o Cristo
Sacudiu a cabeça tristemente, Encarou, suspirando os delatores, E conservou-se mudo. Urgia o tempo, Convinha abreviar o atroz processo,
Achar um vão pretexto, um qualquer meio, De consumar o infausto sacrifício. Retirou-se Caifás. Desprotegido Ficou Jesus, sozinho exposto à sanha
Do vulgacho grosseiro, e às zombarias Dos depravados, ímpios quadrilheiros.
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