Iluminada estava a bela sala, A sala do festim; servida a mesa: Adornadas de palmas as pilastras, Quando Jesus chegou. Mágico efeito
Produzia o clarão dos brancos círios Sobre as ricas alfaias e cortinas Das mais vistosas sedas, que mudavam As vivas cores sob a luz imprópria.
Suave aroma de resinas brandas Embalsamava o ar; — vago mistério, Secreto encanto que os altares cerca, E banha os santuários, quando mudos
No silêncio da noite refletimos No templo do Senhor, e nosso espírito Julga presente Aquele que invocamos: Os dilúvios, talvez, de um outro mundo,
O claro espaço enchiam, consagrado Da liberdade aos últimos momentos, Da caridade às práticas sublimes, E da esperança às vívidas promessas!”
Convidando os humildes companheiros, Sentou-se à mesa o Salvador; à destra Tomou lugar o cândido discípulo, Filho de Zebedeu, à esquerda... Judas!
Ocuparam os mais ambos os lados. Como não fosse o gosto dos banquetes, Nem a paixão das tinas iguarias Que os reunira ali, mas o respeito
Das priscas tradições e os atrativos Da fraterna união, passava o tempo, E os felizes consócios discorriam Sobre as divinas leis. Silencioso
Até então Jesus se conservava, Mas elevando a voz grave e solene Deste modo falou: — Oh meus amigos! Desejei com afã, entre vós outros
A Páscoa celebrar antes da morte; E crede, vos afirmo, doravante Nenhum sustento levarei à boca Até que ela se cumpra gloriosa
No reino de meu Pai! — Houve uma pausa De curta duração, o amado Mestre Tomou então um cálice de prata, Em cujas faces primoroso artista
Insculpira o sublime sacrifício Do pio e manso Isaac, e lentamente O encheu de rubro e generoso vinho. — Bebei — disse entregando-o aos companheiros,
Que não mais provarei da vide o fruto, Enquanto não vier o Reino eterno! — Depois ergueu-se e se afastou da mesa, Despiu as vestiduras, e cingiu-se
De alva toalha do mais fino linho, Tomou uma bacia, encheu-a d’água, E voltando de novo, mudo e humilde, Pôs-se a lavar os pés a seus discípulos.
Esta insólita e nova cerimonia Lançou a confusão nas almas simples Dos simples aldeões: surpreendidos Olhavam para Cristo e não ousavam
Um gesto aventurar; porém, tranquilo Prosseguia Jesus: nas finas dobras Da macia toalha os pés molhados Enxugava ao penúltimo. Entretanto,
O velho Pedro esquivo se escondera, E chegando-lhe a vez, o grande Mestre Chamava-o com instância. — Em tal não penses, O lhano galileu gritou medroso;
— Lavar-me os pés, Senhor, a mim, teu servo, Tu, meu Mestre, meu Pai, meu Deus! não quero Nem o deves querer! — Se te recusas, Responde o Salvador, — não és comigo;
Da santa comunhão não fazes parte! — Não! não me negarei, atalha Pedro, Lava-me os pés, Senhor, as mãos... o rosto, Lava-me o coração! Torna-me puro
Como a luz, como o céu, como a verdade! — Porém, disse Jesus, o que está limpo Só deve os pés lavar, os pés somente, E vós outros sois limpos... ah! não todos!...
Se os sócios do Senhor não conhecessem A Índole de Judas, bastaria Para entender a dúbia referencia Olhar para o traidor! — Tinha no rosto,
Na fealdade horrenda de um demônio, A sinistra expressão de um condenado. Findo o humilde serviço, o Mestre exímio Pôs de lado a toalha, e satisfeito,
Tomando as vestiduras, assentou-se No lugar que deixara junto à mesa, E assim continuou: — Pobres amigos! Senhor e Mestre me chamais, é certo
Que sou Mestre e Senhor; — julgai agora, Quando eu, Senhor e Mestre, os pés vos lavo, O que deveis fazer? Seguir-me o exemplo, Lavar os pés também, mas uns aos outros. —
Então, tomou o pão, lançou-lhe a bênção Em nome de seu Pai, e erguendo o rosto Nesse momento esplêndido de graças, Distribuiu aos mansos companheiros
O sagrado alimento. — Eis o meu corpo, Dado por vosso amor; depois, enchendo O cálice de vinho, apresentou-lhes: — Eis o meu sangue, o sangue da inocência,
O da Nova Aliança ardente sangue, Que por vossa intenção será vertido: Comei, pois, e bebei!... Entre os convivas Este festim divino, entre os eleitos
Que o maná verdadeiro, a hóstia santa, O vinho milagroso recebiam, Achava-se o preceito que vendera A carne e o sangue do celeste amigo!...
O Cristo suspirou baixando os olhos, Depois assim falou: — Sombrio arcano! Desgraça inevitável! No futuro Sem que a suprema lei domine os atos
Da liberdade humana, eu vejo claro O que há de suceder! Mesquinhos seres! Sentados junto a mim, tratais-me agora Com respeitoso amor, vossas palavras
São da fidelidade a viva cópia... E, contudo, um de vós há de trair-me! E, contudo, um de vós, pérfido, ingrato, Ha de entregar-me aos bárbaros verdugos
Que meu sangue reclamam, como a herança De seus perversos pais! — Senhor, que dizes! — Serei eu?... Serei eu?... logo perguntam Os pobres, aterrados. — Ora, vede,
Prossegue o Redentor — dos que me cercam, O que a meu prato leva a mão comigo, Aquele a quem eu der o pão molhado, É ele o delator. — Junto de Cristo,
À destra, estava João, o mais discreto, O mais moço também, e o mais formoso Da caridosa grei; entristecido Ao ouvir estas lúgubres palavras,
Escondera a cabeça graciosa No seio de Jesus, e as loiras ondas Dos lustrosos cabelos anelados, Como um véu de áureos fios, lhe ocultavam
As abundantes lágrimas. Bem cedo Cumpria-se o mistério: várias vezes, Por simples distração ou grosseria, No prato do Senhor tocara o ímpio,
Mais claro ainda o caso ia tornar-se; Já ninguém conversava: então o Mestre Cortou o pão, molhou-o, e deu a Judas! — Senhor! Senhor, que fazes!... porventura
Me julgas o traidor? — Tu o disseste, Tu o disseste, Judas! — lhe responde O Cristo magoado. — O que receias? Vai, as horas escoam-se ligeiras,
E o que tens de fazer, faze-o depressa! — Um momento depois em vão buscavam Na sala do banquete o fementido: Ele os tinha deixado, e estava longe.
Cookies on Poetry Cove