Deixando os verdes prados e as campinas
Da Galileia superior, tristonho
Desce o Jordão, e em meio de seu curso
Perde em Genesaré, escuro lago,
O nome e a cor das águas celebradas,
Para depois seguir mais cheio e forte
Até o leito impuro do Mar Morto,
Em cujas ondas fétidas, sulfúreas,
Segundo a tradição, jazem os restos
De Sodoma e Gomorra. Às férteis bordas,
Da banda ocidental, entre a frescura
Dos bosques florescentes, lindas veigas,
Levantam-se choupanas de pastores,
Belos casais e aldeias aprazíveis,
Apriscos e currais, ledos retiros,
Onde saltam formosos cordeirinhos,
E a voz dos pegureiros se mistura
Às singelas cantigas das zagalas.
Cafarnaum alveja entre as folhagens
Das balsas odorosas, Betsaída
Espelha-se nas águas sussurrantes
Que lambem-lhe as muralhas. Nesses sítios
Onde do mundo as ambições não chegam,
E a doçura do clima, a luz macia
De um céu sempre sereno alegra as almas,
Demora-se o Senhor por algum tempo.
Surdos boatos, agoureiras vozes,
Chegam a seus ouvidos. Os sequazes
Dos grandes de Israel o povo iludem
E açulam contra o filho de Maria.
Buscam para o matar por toda parte.
— É cedo ainda, — o Salvador murmura,
E descansa entre os seus calmo e tranquilo.