Jesus, porém, prevendo o fero intento. Dos pérfidos ministros, retirou-se Para as bandas de Efrém, pobre cidade Isolada no meio dos desertos.
Não temia o furor dos inimigos, Não fugia medroso, antes tranquilo Esperava seu fim. — Próxima estava. Da Páscoa a grande festa: os sacerdotes,
Escribas e doutores, agastados Pela ausência da vítima inocente, Encheram de espiões os arrabaldes, E prometeram pingues recompensas
A quem seu novo asilo descobrisse. Seis dias, entretanto, antes da Páscoa, Volvendo Cristo aos ares de Betânia, Entrou na casa de Simão — leproso,
Onde à noite ceou. Lázaro estava Nesse tempo a seu lado, e a irmã querida, Marta, os servia na modesta mesa. Discorria o Senhor sobre o futuro,
Sobre o reino dos céus, a glória eterna, A beleza inefável da virtude, O brilho imaculado da inocência, Quando, trazendo um vaso de alabastro
Cheio de essências finas, preciosas, Chegou Maria, e palpitante ungiu-lhe A fronte sacrossanta. — Desperdício! Esbanjamento inútil! — grita Judas.
Não podias vender esses perfumes Dos pobres em favor? Oh! certamente São trezentos dinheiros que perdemos! Era duro, mesquinho, interesseiro,
O taciturno hebreu; trazia a bolsa Da humilde companhia; e mais prezava Que a própria, inútil vida, esse pecúlio Que de todos provinha, era de todos.
— Judas, porque censuras e molestas Esta ingênua mulher! O Mestre exclama. O que ela fez seu coração revela: Mostrou-se boa e crente. Neste mundo
Sempre tereis os pobres e infelizes, Quanto a mim... — leve sombra de tristeza Nublou os olhos límpidos de Cristo, Que prosseguiu depois baixando o rosto:
— Oh! ela ungiu meu corpo antes que desça À fria sepultura, e vos afirmo: Em todas as nações, em toda a parte Onde se repetir este Evangelho,
Seu belo proceder será louvado! — Como soía, se afastou da mesa, Buscando um ermo sitio onde sozinho Pudesse meditar. Era alta a noite...
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