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1841–1875

IX

Luís Nicolau Fagundes Varela

Ave, Maria! — Como um templo imenso Depois das pompas de solene ofício, Majestoso, severo, inda fremente De cânticos divinos, quando tristes

Nos candelabros de ouro os círios dormem, E a lâmpada sagrada a medo brilha Entre nuvens de incenso, derramadas Pelas naves sombrias; horas graves

Em que muita oração, muito soluço, Soam atrás dos dóricos pilares, Tal nos parece a terra, quando ao longe Fenece o dia, e a noite se apropínqua...

— Ave Maria!... O pavilhão celeste Sobre nossas cabeças se arredonda, Puro como a ilusão de uma criança! No pórtico sublime do Oriente

Surge fagueira a estrela vespertina, E, além, de nossas pobres freguesias Nos altos, alvejantes campanários, Soa, pausado e lento, o velho bronze

Dobrando: — Ave Maria! — O viajante Que vem de terra estranha, e a pátria busca, Se ajoelha na beira do caminho, — Ave Maria — suspiroso fala.

O cabreiro que desce das montanhas, Ao redil conduzindo a grei singela. Para, levanta para os céus os olhos, E diz: — Ave Maria! — A mãe querida

Chama zelosa a prole abençoada, Junto à lareira da tranquila choça, E lhes repete a saudação divina. — Ave Maria!... na soidão dos mares

Murmura o navegante. — Ave Maria! Reza o triste mendigo nos alpendres Dos paços festivais! — O rico e o pobre, O poderoso, o humilde, o rei e o povo,

— Ave Maria! — nessas horas dizem!... — Ave Maria! — Pálida e chorosa, Ela medita à porta da cabana, A mais formosa e pura entre as mulheres.

Quando, volvendo à estrada os belos olhos, À luz incerta e frouxa do crepúsculo Avista o Filho amado e seus amigos,

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