Era tarde!... Do ergástulo sombrio,
Onde os castigos corporais se cumprem,
Circundado de guardas e verdugos,
Jesus descia então a larga escada.
No centro da prisão, na sala negra,
Coberta de instrumentos de suplício,
Alastrada de algemas e correntes,
Rotos grilhões, ensanguentadas cordas,
Os algozes pararam. — Tu soluças?
Tu escondes o rosto, ingênua musa?
Oh! continua e chora! — Então, vergou-se
O corpo do Senhor ao férreo peso
Das garras dos brutais executores;
Caiu-lhe a pobre túnica, em pedaços,
Nos doloridos pés! Depois... os golpes
De amiudados, rábidos açoites,
Ecoaram nos fundos calabouços!
Era o primeiro quadro do martírio!...
Os bárbaros cansaram. Necessário
Era que ao sangue se ajuntasse o escárnio.
Assim fora predito. Então puseram
Sobre a cabeça do Divino Mestre
A coroa da glória e do infortúnio,
Um tecido de espinhos lacerantes!
Entre as mãos uma cana verdoenga
Colhida nos pauis, e sobre as chagas,
Sobre as vivas feridas, que as vergastas
E os látegos abriram, — miseráveis!
Sórdido manto de grosseira crina!
— Salve! Rei dos Judeus! — gritavam rindo!
E lançavam-lhe ao rosto o imundo escarro
Do ódio e do desprezo, e lhe atiravam
Sobre a sangrenta fronte descabida
O Iodo da prisão e as imundices!