Oh! meus irmãos, por certo nunca vistes, Nem Deus permita que vejais um dia A figura sinistra de um possesso! Se a tivésseis mirado, a vida inteira
Tremeríeis de horror!... — Apenas descem O Salvador e os seus à lisa praia, Quando um grito estridente e pavoroso, Como rugir de fera em antro escuro,
De imigo sangue pressentindo o cheiro, Abala o espaço e chega a seus ouvidos. — Céus! — Não temais, olhai à nossa destra; Vedes aqueles densos ciparissos? —
Diz o Senhor, — é um cemitério, tristes, Entre a espessura os túmulos alvejam; Não distinguis?... — Senhor! — Olhai de novo. Então da mesta sombra do arvoredo,
Sanguentos membros, retorcida boca, Lábios cobertos de espumosa baba, Cheios de lodo e cinzas os cabelos, Um homem seminu surdiu, bramindo;
Lançou-se às plantas, arrancando as folhas, Lançou-se às tumbas, levantando as lousas, Arrojou-se no chão mordendo as pedras, E nas convulsas mãos esfarelando
Torrões calcários, carcomidos ossos! Depois ergueu-se; gotejava o sangue Dos pés, do peito, do inflamado rosto; Volveu à roda as hórridas pupilas
Onde o fogo do inferno chamejava, Rangeu com fúria os dentes, e avistando A poucos passos o Senhor: — Oh! vai-te, Jesus, Filho do Deus, não me atormentes —
Gritou torcendo os braços macerados. — Qual é teu nome? — o Salvador pergunta: Responde, que te ordeno! — Uma voz rouca, Feia e destemperada, não dos lábios,
Mas das entranhas fez-se ouvir, e disse: — Chamo-me — Legião — tua virtude Reconheço, bem vês, e teu império; Mas não me obrigues a voltar, te rogo,
À negra estância das eternas dores! Era uma multidão de infensos gênios Que assim falavam numa voz apenas! Ora, a pouca distância, na planície,
Suja manada de animais imundos Grunhia revolvendo a verde relva, Vendo-a, Jesus, dirige-se aos demônios: — Deixai meu pobre servo, ido alojar-vos
Daqueles brutos nos nojentos corpos! — No mesmo instante a cáfila tartária Ganha, silvando, a sórdida manada, Que enfurecida e cega, salta e corre,
Se encaracola, morde-se, esbraveja, E galgando um rochedo íngreme, bronco, No mais fundo das águas se despenha.
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