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1841–1875

IV

Luís Nicolau Fagundes Varela

A noite passa. O astro da saudade Atufa-se nos mares. O Oriente Arreia-se de flores purpurinas. Surge, filha da luz! Última aurora

Da estação da inocência e da esperança! Oh! vem! Clareia o céu, anima os bosques, Aviventa os sertões e as cordilheiras!... Mas, à beira do rio, deslembradas

As canoas estão dos pescadores; Das cabanas abertas não se expande O fumo que anuncia a paz e a vida! Os cantos virginais não se misturam

Ao burburinho trépido das fontes, Nem as vozes vibrantes dos mancebos Ao golpear sonoro dos machados Nos grossos troncos dos ipês frondosos!

Entretanto, ao redor do pobre templo As mulheres soluçam; tristes padres, Sócios e amigos do inspirado Mestre, Chegam de longes terras, incansáveis,

E param nos degraus do Presbitério, Receosos de entrar; falam baixinho Aos humildes conversos que os rodeiam, E penetram, por fim, no santo asilo,

Onde o ilustre varão, prostrado aguarda O momento supremo. Quão serenas — São as feições do lúcido profeta! Quão meigos seus olhares! Quão suaves.

As palavras e os votos que dirige Aos lacrimosos velhos companheiros!... Homens que ledes estes rudes cantos, Viandantes de um vale de infortúnios

Onde cada progresso deixa um marco Salpicado de sangue, e cada esforço Do gênio e da virtude uma coroa Férrea, crivada de aguçados cravos!

Não busqueis nas lições dos grandes sábios, Nem nos padrões da história, a luz brilhante Que desvenda os mistérios de além mundo! Vede o justo morrer! Fitai os olhos

Nesses olhos, que os páramos celestes Radiantes devassam! Nesses lábios, Onde seguro e plácido sorriso Anuncia a certeza do Infinito!

O próximo descanso, — a glória excelsa No seio de Abraão! — Deus se revela, Brando e terrível, justiceiro e forte, Nas lívidas feições do moribundo.

Melhor que no bramir das tempestades, Nas faces torvas dos revoltos mares, Ou no zimbório azul do Firmamento Semeado de fúlgidas esferas!

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