Quem és tu, pensativo cavaleiro Que do escuro corcel te apeias mudo À soleira da ermida? O desalento Altera-te as feições nobres e belas,
E um profundo pesar, não disfarçado, Quebranta o brilho de teus olhos negros! Quem és tu? De onde vens? Tristes noticias Trago a vosso retiro, exímio padre. —
Diz o moço avistando o missionário. — Bem vindo sejas, servidor de Cristo, Responde o sábio mestre, que desgraças Vens tu me anunciar? Fala, não temas,
Que tudo espero nesta quadra infausta. — Caminho há quinze dias sem descanso, Diz o pobre emissário, hei-vos buscado Como o animal mordido da serpente
A fonte salvadora. O sangue, o luto, Cobrem de Guanabara as alvas praias! A voraz ambição da velha França Infiltrou nas artérias dos selvagens
O veneno da raiva. — O surdo estrondo Das clavinas de bronze se mistura Ao silvo agudo das ervadas setas No espaço afogueado. As feias hordas
Dos Tamoios cruéis, se precipitam Dos montes e dos cerros escabrosos, E as planícies dominam. Destemidos Como leões resistem nossos bravos,
Mais terrível em número, contudo, O inimigo fraqueia, que a vitória Do soldado Cristão repousa ao lado. Quando, porém, a lua vagarosa
Dourava os verdes, plácidos outeiros Da linda Niterói, um brado horrendo Correu lançando a confusão e o susto Entre nossos valentes lidadores:
— É morto o chefe! — O gelo do desânimo Os braços enfraquece, esfria os peitos, Extingue o fogo ardente dos combates Nos olhos dos guerreiros. — Os mais nobres
E sábios campeões deixam as armas, E beijam soluçando as mãos geladas Do ilustre moribundo!... — Oh! Deus eterno! Exclama o comovido mensageiro,
Eu o vi, eu o vi... pálido e belo, Transpassado de aguda, ervada flecha, Sobre o arenoso chão! De espaço a espaço, Vendo seus denodados companheiros
Vencidos pela dor, movia os lábios, Procurava faltar... Baldado esforço! Uma golfada de espumoso sangue Do seio rebentava, estranho lume
Incendeia-lhe os olhos, e de novo Caía extenuado!... À meia noite Deixava de existir. — Fatalidade! Murmura o missionário. — O que me dizes,
Piedoso guerreiro! Estácio é morto! Estácio, o fundador do grande empório Das riquezas do Sul! — No verde monte Que mais se alonga no espumoso pego,
E primeiro descobre a vasta barra, Nós abrimos do herói a sepultura; Os servos do Senhor, trajando luto, Cantaram junto ao corpo os hinos santos
Do livro das divinas epopeias. Depois ao triste adeus da artilheria Que os vales atroava, o depusemos No funerário leito. — À madrugada,
Seguindo as instruções de vossos freires, Parti a procurar-vos. Eis a história Do lúgubre sucesso: eis o depósito Que tenho de entregar-vos. — O mancebo
Tira do seio um grosso manuscrito, Que ao ministro apresenta. — Cumpre agora Que descanses um pouco e te alimentes, Vamos. — E entram na ermida um após outro.
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