Jerusalém dormia. Entre os palácios, As riquezas dos príncipes romanos, As pontifícias galas, e a penúria, A vil degradação da ínfima plebe;
Entre os vastos salões, as lautas mesas, Os belos camarins, os fofos leitos, E os tugúrios fumosos, negros, frios, Os farrapos nojentos, as lareiras
Apagadas, vazias; — ressonava A geração de escravos e mendigos, Em cujas veias circulava ainda O sangue dos austeros patriarcas!
Jerusalém dormia. A raça impura, Que outrora livre e farta no deserto, Chorava pelo duro cativeiro Das regiões do Egito, e suspirosa
Lembrava-se das ôlhas abundantes, E das amplas dispensas e cozinhas Do grande Faraó, — a raça estulta, Talvez feliz, em sonhos, se julgasse,
Por partilhar os restos e as migalhas Que sobravam da orgia dos tiranos! Jerusalém dormia. A voz pausada E rouca das latinas sentinelas
Nas muralhas de escura fortaleza, O pio das corujas agoureiras Nos velhos bastiões, os longes ecos Dos nefandos festins, de quando em quando
O silêncio da noite interrompiam. Mas, nas habitações dos sacerdotes, Nos paços dos pontífices vaidosos, Estranho movimento anunciava
Importante sucesso. As portas francas, Os pátios e saguões iluminados, Guardas dobradas, confusão de servos, Tudo, enfim, revelava que essa noite
Era não de prazeres e folguedos, Mas de urgentes questões, graves negócios.
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