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1841–1875

II

Luís Nicolau Fagundes Varela

— Sobre esse escuro e carcomido tronco, Onde os velhos da tribo descansavam Para os conselhos presidir d’outrora, Senta-te, e enquanto diligente e sábia

Aos cuidados da casa a mãe acode, Conta, Naída, o sonho pavoroso De que alhures falaste. — Assim ordena Da porta da cabana, onde nascera

A formosa conversa, o ilustre mestre. Obedece à donzela e assim começa: — Eram horas da noite adiantadas, Eram horas pressagas, horas mortas;

Já pela vez segunda a voz soltara O galo, a voz rouquenha e feiticeira. Nem eu dormia, nem desperta estava: Fundo terror tolhia-me os sentidos.

Intentava gritar, porém meus lábios Recusavam mover-se, e minha língua, Presa à garganta pelo nó da morte, Parecia gelada em minha boca!...

Fiz um supremo esforço: levantei-me. Então... Calou-se a virgem do deserto, E nas mãos escondeu o lindo rosto. — Então? que viste? — lhe pergunta o mestre.

— Sobre mim debruçado... a fronte horrenda, Qual horrendo rochedo escalavrado Pelo fogo do céu... rubros os olhos; A formidável mão pesada e fria,

Fria e pesada qual medonha pedra Do leito funerário de um precito, Sobre meu peito angustioso estava..., Ele estava!... — Ele, quem? — O negro gênio

Da perdição eterna! O anjo rebelde! Tal como nos pintaste, sobre o monte Tentando o Salvador! — Um ledo riso Aos lábios assomou do missionário.

— Graças a Deus, Naída, estou tranquilo, Algo mais sério acreditei que fosse! Tiveste um pesadelo; mas, prossegue. — — Oh, se eu então sonhava, sonho ainda!

Exclama a ingênua moça. — Mestre, ouvi-me. Ossos, carnes, tremi!... Então ao longe, Um grito ressoou, profundo, imenso, Como a voz do trovão por sobre os mares!

— Maldito! — E as selvas todas se abalaram, E das grutas, das serras, e dos campos, E dos mais afastados horizontes: — Maldito! — os ecos todos repetiram!

— Vi depois um deserto, um mar de areias, Sem animais, sem plantas, sem regatos, Sem um indício que lembrasse a vida, Porém milhares apontando a morte!...

Por toda parte amarelados ossos, Carnes corruptas, putrefatos restos! Restos de escravos, restos de senhores! Restos de ovelhas, restos de panteras!

Restos de abutres, restos de serpentes! E o tigre e a presa agonizando juntos, O verdugo e a vítima esquecidos Na mesma confusão, no mesmo cabos!...

Um céu de ferro em brasa, um sol do inferno, Um espaço sem nuvens, sem neblinas, Sem vendavais, sem raios!... sempre calmo! Horrendamente calmo e luminoso!

E esta palavra escrita, em toda a parte — Caim! — Cerrei por um momento os olhos, Quando os abri de novo, era mudada A face do deserto: — irado vento

As montanhas de areia arrebatava Qual a brisa do estio as folhas secas. De rubro incendiado em flavo baço, Mais ominoso ainda, o céu tornou-se!

De instante a instante monstruosos galhos, Arrancadas palmeiras, sibilavam Como flechas sutis, atravessando Nas asas dos tufões o torvo espaço!...

Daquela imensa confusão no meio Eu vi passar um homem: seu semblante Era grosseiro e negro como a rocha Que branqueiam de escuma as frias vagas:

Seu corpo como o tronco do vinhático Onde a chama brincou; sarça coberta De pisado carvão a dura grenha. Mãos e braços de sangue eram manchados!

De lado a lado olhava suspeitoso, Parava aos sobressaltos, e tremia, Não pela tempestade sacudido; Porém... — Um brado assustador ergueu-se

Daquela horrível solidão de areias: — Caim! — Como o jaguar atravessado Pelo dardo certeiro urra, e volvendo Nas órbitas os olhos chamejantes,

O cauteloso atirador procura, Assim ele rugiu! — Um véu de sombras Tudo cobriu. Depois, qual nos abismos Traidores e funestos do Oceano,

Contém o respirar, calcula as forças O audaz mergulhador, o destro búzio, Assim ele ficou!... Do pobre leito Tudo eu via e sentia! O mar de sombras

Também caiu então sobre minh’alma! Mas o bulcão passou. Do vento as iras Acalmaram-se logo. O descampado, Onde os montões de areia se moviam,

Tornou-se liso e plano como um lago Em tarde de verão. O homem sinistro, Se ali estivera, sepultado estava. — E Naída calou-se. O missionário

Tinha a cabeça baixa e refletia, — Está findo o teu sonho? — Oh! não ainda! A virgem respondeu cobrando alento, Ouvi mais um instante: — Ao longe, ao longe,

Além dos areais, vi levantar-se Uma cadeia de alterosos montes Cobertos de palmares graciosos. Leves colunas de ondulante fumo

Erguiam-se do meio das folhagens; Doces, ternas canções acompanhadas De tangeres estranhos, ressoavam Por aqueles sertões. Era distante,

Bem distante o lugar d’onde partiam, Mas eu tudo escutava. Francos risos, Brados alegres, compassados cantos, Longo tempo minh’alma apavorada

Propícios distraíram. — Deus bendito! Murmurei suspirando, — ali ao menos Algum povo feliz habita e folga! Desgraçada ilusão! O homem sinistro

Nas montanhas surdiu, medonho, enorme, Semelhante a um penedo alcantilado, Que nas tardes de inverno as nuvens rasga — Caim! — bradou a voz da imensidade!

— Caim! — Tudo findou-se, atro negrume Rolou do céu, cobrindo as cordilheiras; Escutei um rumor profundo e mesto, Semelhante ao das águas das torrentes

Cavando o seio escuro dos abismos!... E esse rumor crescia e atordoava Os vales, as rechãs e as serranias! E daquelas montanhas encobertas

Precipitou-se um rio impetuoso, Ganhou os areais, ganhou as praias, Vingou as vagas do Oceano irado, Chegou a nossas terras, inundou-as,

Chegou até aqui, até meu leito! Ergui-me, olhei... o rio era de sangue! — Caim — bradou a voz da imensidade!... Senti nas faces o suor da morte,

Volvi ao céu os olhos ansiosos Ele ali estava, o Filho de Maria, Radiante, sublime! Ele ali estava! De seu rosto divino, de seu corpo

Também caía sobre a terra o sangue, Mas desse puro sangue rebentavam Rosas e lírios, palmas e grinaldas, Diamantes e rubins, e um povo imenso

Bradava jubiloso: — Liberdade!... Está findo o meu sonho. — O missionário Tinha a cabeça oculta entre os joelhos. Pouco tempo depois ergueu-se. — Vamos,

Disse enxugando os olhos lacrimosos, Nossos irmãos esperam-nos inquietos.

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