Rubro como um baixel incendiado No proceloso mar, como a cratera De inflamado vulcão na raia escura De longínquo horizonte, ou como o vulto
De condenada esfera que declina Para jamais surgir, o rei dos astros Esconde-se nos términos do ocaso. Antes, porém, que a noite, a vária deusa,
Mãe das áureas visões e dos remorsos, Protetora do crime e da inocência, Estendida sobre a terra o plúmbeo manto, Reúnem-se os fiéis no eremitério,
Onde os chama o dever e a caridade. Fecha o sábio pastor a santa Bíblia Que atento folheava, os tristes olhos Volve ao caminho alpestre. Um viageiro
Assoma na espessura das devesas. Jadir!... Era o guerreiro do deserto, Que ao deserto saudoso regressava. — Jadir, o que fizeste? O que procuras?
Porque deixaste teus irmãos, teus chefes, Teu santo pavilhão? — É certo, padre, Responde ao pio mestre o audaz mancebo, Sim, deixei tudo, que o destino ingrato
A fonte envenenou de meu futuro! Que nem força e valor, crenças e brios Me restam neste mundo, homem piedoso, Homem da mansidão, cujas doutrinas
Minha alma iluminaram, não me acuses! Escuta-me por Deus! No espaço ardente, No torvelinho horrendo dos combates, Uma voz magoada, triste, enferma,
Chegou a meus ouvidos: — Corre, amigo, Minha vida se extingue como o fumo Das choças do sertão, quando perpassam Os ventos da manhã! — Sócio da infância,
Companheiro das lidas da floresta, Aos longes arraiais levou-me as queixas Da desditosa irmã. Deixei as armas, Os perigos, o posto, o acampamento;
Voei como um tufão, como um pampeiro Das regiões do sul!... Inda respira, Inda respira a rola no deserto? Dize, dize, que mata-me a incerteza! —
E calou-se Jadir. O mestre ilustre Não respondeu, porém; ergueu-se mudo, Travou do braço do infeliz converso, E afastou-se da ermida lentamente.
No remanso de um vale ameno e fresco, Perto de clara fonte, onde as acácias Inclinavam-se trêmulas, beijando As águas gemedoras, avultava
Uma grosseira cruz; o missionário Parou, levou ao seio as mãos unidas; Depois, mostrando o chão da sepultura Disse abaixando a voz: — Ali, meu filho!...
Naída dorme ali! — Singela musa, Musa da solidão, anjo dos ermos, Que descoram as áridas vigílias! Não procures lembrar a mágoa extrema
Do mísero Jadir! Há sofrimentos Como os segredos da famosa esfinge, Cumpre deixá-los no mistério envoltos!... No terreiro, porém, da pobre ermida
Já crepitam as vívidas fogueiras, Dardejando as vermelhas labaredas No véu da noite escura, impetuosas, Como os feios dragões de mil cabeças
Das legendas antigas. Triste e muda A multidão aguarda o amado mestre. Ei-lo, por fim, que chega, acompanhado Do guerreiro infeliz. Lhano responde
Às saudações benévolas do povo; Senta-se, e alçando a voz, distinta e clara, Continua a sagrada narrativa: — Da ceia do Senhor, tracei, meus filhos,
O memorando quadro; então, mostrei-vos O príncipe dos céus humilde e manso Lavando os pés aos frágeis pecadores; Depois, vimo-lo à mesa repartindo
O maná verdadeiro, o pão dos anjos, Com seus fiéis amigos, e mais tarde Nos silvados aspérrimos do Horto A morte prelibar, sentir nos membros
A fria exsudação d’água e de sangue Porejar copiosa; enfim, vendido Por Judas o traidor, o sevo monstro, Preso e manietado, entregue à sanha
Dos rancorosos padres e juízes, Embusteiros legais, nobres verdugos, Ilustres carniceiros, revestidos De púrpura e de arminho. — Prossigamos:
O horizonte se obumbra... desce a noite, A noite mesta e lúgubre da história... Um orvalho sangrento alaga os campos... Dá-me forças, Senhor, que tenho medo!
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