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1841–1875

I

Luís Nicolau Fagundes Varela

Branca vestal do templo da saudade! Musa da ausência, compassiva musa, Que desfolhas nos páramos do exílio As rosas da esperança, borrifadas

De lágrimas de amor, e suavizar As vigílias do bardo forasteiro, Repetindo as canções dos pátrios lares! Biênio das tradições! Que pensamentos

Inspiras nestas horas de tristeza Ao pastor do deserto? Quão serena, Das altas cordilheiras do Ocidente, Vem a noite ganhando os fundos vales!

Quão suspirosa a viração dos ermos Passa no seio escuro dos silvados! Quão gemedoras rolam das montanhas Por entre os véus de espuma as cachoeiras!

— Oh! meu plácido berço! Oh Tenerife! — Exclama o solitário alçando os olhos Aos vastos céus azuis, — ilha querida, Mimo do largo mar, cesta de flores

Esquecida na rota dos Fenícios! De meu pio desterro inda te vejo, Como sempre te vi nos belos sonhos Da curta juventude! — As auras frescas

Brincam talvez agora nas videiras Do rústico solar de meus maiores, As ondas espreguiçam-se nas praias Curvas como os alfanjes sarracenos;

O titã de granito ergue nos ares A fronte audaz e ríspida, cingida De um turbante de névoas sempiternas! Nada mudou: nas penhascosas grutas

Pousam ainda os pássaros marinhos; O possante albatroz estende as asas Sobre o verde oceano; os líbios ventos Trazem da terra firme as cantilenas

Dos sanguinários, rudes fetichistas!... Mas de meus pais... só restam na jazida Os carcomidos, alvacentos ossos! Ali sumiu-se o nome de Anchieta!...

Calou-se o sábio. O orvalho da saudade Pelas pálidas faces desusava. Mas, um estrondo horríssono e profundo, Como o estalar de transviada esfera

Nas regiões sombrias do infinito, Retumbou nas extremas do Oriente! O céu afogueou-se, o mar bramiu; Cruzaram-se os relâmpagos, rasgando

A tela dos negrumes condensados Sobre a face da terra: o anjo da morte Sacudiu no Levante as asas negras! Tomado de terror prostrou-se humilde

O sagrado pastor das soledades, Invocando de Cristo o santo nome.

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