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1826–1864

ÚLTIMO CANTO DO CISNE

Laurindo José da Silva Rabelo

Quando eu morrer, não chorem minha morte, Entreguem meu corpo à sepultura; Pobre, sem pompas, sejam-lhe a mortalha Os andrajos que deu-me a desventura.

Não mintam ao sepulcro apresentando Um rico funeral d’aspecto nobre: Como agora a zombar me dizem vivo, Digam-me também morto — aí vai um pobre!

De amigos hipócritas não quero Públicas provas de afeição fingida; Deixem-me morto só, como deixaram-me Lutar contra a má sorte toda a vida.

Outros prantos não quero, que não sejam Esse pranto de fel amargurado De minha companheira de infortúnios, Que me adora apesar de desgraçado.

O pranto, açucena de minh’alma, Do coração sincero, d’alma sã, De um anjo que também sente meus males, De uma virgem que adoro como irmã.

Tenho um jovem amigo, também quero Que junte em minha Essa os prantos seus Aos de um pobre ancião que perfilhou-me Quando a filha entregou-me aos pés de Deus

Dos meus todos eu sei que terei preces, Saudades, lágrimas também; Que não tenho a lembrança de ofendê-los E sei quanta amizade eles me têm.

E tranquilo, meu Deus, a vós me entrego, Pecador de mil culpas carregado: Mas os prantos dos meus perdão vos pedem, E o muito que também tenho chorado.

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