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1826–1864

SAUDADES

Laurindo José da Silva Rabelo

Da saudade, bem amado, Nesta ausência tão distante, Cada vez mais encravado O espinho penetrante,

O coração sossegado Me não deixa um só instante. Como do caos primitivo Surgiu bela criação,

Do caos da minha tristeza Da pátria surge a visão! Tenho saudades dos montes, Dos ares, dos horizontes

Que à pátria servem de véu; Saudades dos meus palmares, Saudades daqueles ares, Saudades daquele céu!

É puro, mas com ser puro Este céu me não convém; Que tendo tantas estrelas A minha estrela não tem!

Muitas vezes a procuro, Mas debalde!... um ponto escuro No seu lugar se fitou; Conheço e vejo a verdade:

Foi a nuvem da saudade, Que a minha estrela apagou. Sim, meu bem, brilhou a estrela Sem rival nos brilhos seus,

Enquanto a luz recebia Do lume dos olhos teus; Quando teus olhos ardentes, Rutilando de contentes

Iam-se nela fitar. Hoje que estão desmaiados Por prantos continuados, Com seus sóis quase apagados,

Como há de a estrela brilhar? Cada dia que se passa Neste desgosto cruel, Tem novo quadro a desgraça,

Tem a ausência novo fel, Mais compunge o peito ansiado Esse espinho envenenado, Que a saudade me cravou;

E a dor me tem convencido Que do espinho introduzido Novo espinho se gerou. Eu o sinto, quando estreito

Nos meus transportes de dor, Sobre os lábios, sobre o peito, O meu talismã de amor; O meu fiel companheiro

E talvez o derradeiro Presente de amor, de ti, Na hora da despedida Em que tudo (exceto a vida

Para chorar-te) perdi! Se d’alma a essência celeste Pudesse ser transmitida, O retrato que me deste

Não fora um corpo sem vida Que, ao vê-lo, minh’alma ardente, No transporte mais veemente, Sente ao semblante subir,

E nos olhos condensada, Em lágrimas transformada, Sobre o retrato cair. Aos tormentos que já sobram

Novos reúne a saudade; Os seus negrumes redobram As sombras da soledade. Na mente a imagem se agita

Dessa ventura infinita Que junto a ti desfrutei, Em quadros tão sedutores, Quais nunca dos meus amores,

Nem nos sonhos divisei. O amor com que me abraças, Então não posso dizer! Da saudade sinto as asas

No coração me bater; E contemplando os espaços Que te roubam aos meus braços, E que não posso transpor,

Perco a luz, e desmaiada Cai-me a fronte atordoada Pelos combates de amor! Assim passo em tua ausência.

Eis qual é o meu viver! Melhor que tal existência Mil vezes fora morrer, Se não tivesse a esperança

Que venturosa bonança À tormenta porá fim; Se não tivesse a certeza Que me adoras com firmeza,

Que não te esqueces de mim.

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