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1826–1864

O JORNALEIRO

Laurindo José da Silva Rabelo

Quando ousado o poeta a voz levanta, Em punho tendo o látego da sátira, P’ra castigar hipócritas malvados, É a voz da verdade a voz que soa!

Desmascarar falsários intrigantes, O vício espezinhar, punir tartufos, Velhacos suplantar, caluniadores, São atos que de austera probidade

Louvor sincero e atenção merecem. Armados pois, de um retorcido relho, A um negro covil — talvez o inferno — Por um forte cabresto bem seguro,

Eu vou buscar um torpe Jornaleiro, Que entre sujos papéis escrevinhados (Que só p’ra guardanapo têm valia) Sentado em tamborete junto à banca,

Tendo nas garras de algum corvo a pena, Baldões, insultos contra a honra atira! Trazer pretendo o ganhador escriba Qual jumento manhoso à praça pública

E expô-lo às apuradas dos moleques, Por quem apedrejado ser devia... Quem não conhecerá o Miguelista, Escória dos sandeus de quem eu falo?!...

Chicanista imoral, doutor em nada, Insosso prosador — alto pedante — Que estudar foi na estranja — patacoadas Para dizer-se aqui homem de letras?

Quem não conhecerá o sábio lente, Que num certo colégio desta Corte Ciência geográfica ensinava? Quem não conhecerá — o que na escola,

Onde quer se instruir jovem guerreiro, Explicando o direito ensina o torto?!... O homem que insultava adversários, Alcunhando-os heróis das “vacas gordas”,

E que agora sedento — a grossa teta Bem agarrado, chupitar procura?! Homens raros assim todos conhecem!... Eu não preciso retratá-lo ao vivo,

Descrever-lhe o carão, onde grudados — Nos olhos — tem pedaços de vidraça, O corpo infame, o bojo monstruoso, Qual um balão de fedorentos gases;

E mostrar o letreiro que na fronte — Em letras garrafais — diz “Ganhador”! Todos bem sabem de que peça falo: O trabalho me tira a grande fama

Que por falso, impudente tem ganhado. Sim, ó grão-Redator (a ti me volvo) Ao público amador — quero mostrar-te, P’ra que faça a justiça que mereces...

És qual tarpéia rocha inabalável Em teu princípio firme-o da calúnia — És herói dos heróis, quando se trata De vis aduladores intrigantes!

Um singular portento és na mentira! Tu és grande! és enorme!! porque arrumas Patadas, couces mil, no mundo inteiro!! A natureza pasma ao contemplar-te,

Julgando que não és uma obra sua! Embasbaca-se o gênio das trapaças Vendo brilhar o teu saber ingente! Té o demo — de gosto — pinoteia,

— E berrando que tu, seu protegido, Que és glória sua comunica à terra!... E no entanto ninguém teu pai se julga!... Nem o podem dizer, porque não sabem...

Quem te acendeu nos cascos esses fogos Que tudo abrasam, sem queimar-te a bola? Quem és pois? de onde vens? P’ra onde te atiras?!... És abutre — que mágica do Averno —

Em homem transformou p’ra da calúnia O instrumento ser aqui na terra? És do zoilo invejoso a alma errante, Ou um sopro de negra, imunda harpia?

Onde encontraste o ser? a origem tua?... Veste por acaso do planeta Que Vulcano por lei dizem chamar-se? Onde fixaste o norte de teu rumo,

Ó ente singular, teu paradeiro? Para onde irás tu, quando partires Deste imenso teatro em que tens feito O papel mais infame que se pode?!

Abutre, harpia ou sopro, ou quer que sejas, — És igual a ti mesmo, a ti somente! — Cansa-se a pena a enumerar teus feitos! Envergonha-se aquele que o censura,

Olhando para ti, vendo que és homem, Na figura somente... em nada mais!... Imortal, Redator do papelucho A quem um respeitável nome deste

(Sim que o nome da Pátria, para o probo, Que não p’ra ti, é nome respeitável), É tempo de voltar ao antro escuro, Ou p’ra o lugar — ignoro donde hás vindo!

Já muito por aqui de mal tens feito... As cinzas venerandas revolveste De um dos heróis da “Independência” nossa!... Tua missão cumpriu-se!... é tempo, volta...

Era minha intenção trazer-te à praça; Mas desisto da empresa!... A puros homens É um crime mostrar torpes figuras, Negros quadros, que infâmias representam!

Vai-te! foge daqui! do vate a destra Só cordas vibra de doiradas liras: Se indignado empunha o forte relho Para surrar hipócritas malvados,

Envergonha-se logo do que há feito! É nobre o fim p’ra que o Poeta nasce; E não para amansar bestas bravias Ou corrigir sicários sevandijas!...

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