Não sei se é vida, porém sei que a morte Terá de certo menos amargor; Só sei que a morte tem uma agonia, E não sei quantas tenho nesta dor!
Os olhos fecha quem a vida perde, O bem perdido jamais pode ver; Eu, morto n’alma, fitos os olhos tenho No bem querido, que não posso ter.
Embora firam desgraçada vítima Ervados gumes de cruéis punhais, As dores cessam mal que chega a morte, Sangue as feridas lhe não vertem mais.
Desta ferida nada o sangue estanca... A dor recresce mais, e mais pungente; Morta minha alma para os gozos todos, Só vê que vive pela dor que se sente.
O céu perdoe a quem assim compensa Os sacrifícios deste coração; Porém a mágoa me desvaira a mente: Se não há crime, como haver perdão?
A fronte curva, delinquente altivo, A fronte curva, não és mais que um réu; Teu bafo impuro, que o pecado alenta, Acende o raio que te arroja o céu.
Perdão!... mas seja para mim somente, Nesse olhar terno que o perdão exprime; Perdão te peço, Querubim celeste; pune o culpado, mas perdoa o crime.
Rola de bosque, da inocência ao ninho Eu cego o verme da paixão levei-te; Anjo risonho, sobre a fronte lisa A ruga acerba do cismar tracei-te!
Turvei-te a face, nebulei-te os olhos, Cobri de espinhos o teu santo leito, E da tristeza, que a minh’alma encobre, Parte dos goivos te lancei no peito!
Mas Deus puniu-me!... Da sentença austera Tu escrevias a primeira parte, Quando a meus rogos de extremoso amante Só respondias — eu não posso amar-te!
Mas não bastava: — ao martírio imenso Dobrar devias a cruel tristura; Num sim de amores que me deste um dia, Um céu me abriste de falaz ventura.
Mas presto nuvens o horizonte toldam, De todo nelas a visão se esvai, E o cego doudo, que fitava os anjos, De novo em trevas envolvido cai.
Não ter-te, fora já penar bastante; Perder-te, extremo de cruel penar! Pensei que a pena se acabava nisto, Mas inda tinha mais que suportar!...
Desprezo em troca de meu culto; às ânsias De minha angústia riso mofador, De ti, daquele a quem me sacrificas, Para mostrar-lhe todo o teu amor.
Que a fronte calques, que por ti velando Consome dias, noites sem cessar; Que a fronte calques, que desdenha o mundo E varre a terra p’ra teus pés beijar...
É dura afronta, mas com essa afronta Eu não me avilto, nem me desabono: É nobre o solo que as rainhas pisam, Chama-se solo convertido em trono;
Porém que aplaudas, que consintas outro, Também calcar-me escarnecer de mim... Eu não me lembro que fizesse um crime, Que merecesse ser punido assim!...
Estrela d’Alva de divina aurora, Deixa-me em trevas, é destino meu! Deus te dirige neste mundo os raios, Tu não governas o clarão que é teu.
Não quero o riso desbotado e morno De complacente, caridoso amor; De amor a planta quem a prova incauto Morre do fruto, se não goza a flor.
Deus de teus braços me recusa a dita, Mudo a sentença sofrerei — sou réu; Banhei meus lábios nos paúis do crime, Beijar não posso Querubins do céu!
Mas não mereço do escárnio o riso Mas não sou digno de desprezos tais; Se me não podes destruir a pena, Muda o tormento, que não posso mais!...
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