Morreu!... porém na hora derradeira
Inda resplandeceu! O homem justo,
Entre as vascas do eterno passamento,
Em ânsias e fadigas se atribula,
Mas no momento de deixar a terra,
Para voar a Deus, forças recobra,
E como astro da fé no céu da morte,
Qual em vida luziu, luzindo acaba.
E como a luz, que triste bruxuleia
Prestes a se apagar, mas no lampejo
Da convulsão final aviva o lume,
E com dobrado resplendor expira.
É como o sol no ocaso enlanguecido,
Que desmaiado arqueja agonizante
Do mar nas ondas apagando os raios,
Mas que altivo e zeloso de seus foros,
P’ra morrer como sol, antes que morra
Com duplicada luz alaga o mundo.
Assis assim morreu. Na ânsia extrema
Da mortal agonia, toda inteira
Su’alma concentrada num só ponto
Para da carne disparar seu vôo,
Luz celeste expandiu; ao clarão dela
O mundo apareceu-lhe como um doudo
Enfeitado, brincando com as alfaias;
Sorriu-se, desprezou-o, e seu desprezo
Todo se traduziu nessa sentença,
Com que sábio fechou, morrendo sábio,
O livro d’ouro da existência sua.