O Berço do nascimento,
Ou em palácio opulento
Trajando a gala real,
Ou cama de palhas feita
Onde a escrava o filho deita
Enrolado no sendal;
O Céu que a primeira prece,
De tarde ou quando amanhece,
A criança ouvia rezar,
Quer puro, e ledo sorrindo,
Quer furioso bramindo,
Fuzilando a trovejar;
O lugar onde primeiro
O coração todo inteiro,
Amor dizendo, se abriu;
Prado florente e risonho,
Ou vale escuro e medonho,
Que sangue humano tingiu;
A pátria, enfim, tem encantos,
Tão sedutores e tantos,
Que não se pode vencer!
É uma visão divina,
Que a vida nos ilumina,
E nos segue até morrer;
Mas também o porto amigo
Onde nos braços consigo
A amizade nos levou,
E d’alma, toda chagada,
As feridas consternada
Uma por uma curou;
Onde destras apertamos
Em que pasmados achamos
O calor só natural
A chama que o céu ateia,
Quando veia, sobre veia
Sente sangue paternal;
Essa terra benfazeja,
Inda que pátria não seja,
Igual atrativo tem;
E o estranho protegido
Pode, sendo agradecido,
Chamá-la pátria também.
Lisonja, adulação, alcunhe embora,
O vulgo o puro amor que te consagro,
O culto que te rendo;
Recebeste o meu pranto no teu seio,
Da fortuna enjeitado perfilhaste-me,
Pátria, teu filho sou, e assim te adoro.