Nobre altivez as preces me proíbe, Assim como a razão proíbe as queixas Que lhe posso pedir que dar-me possa? Desejava um amor puro, espontâneo,
Desses que nascem nos segredos d’alma Que ao simples choque de um olhar acordam Para não mais dormir. Queria os vôos Desse amor desvelado, procurando
Dentro em meu coração fazer um ninho; Observar em êxtase os milagres Do proteísmo ser; colhê-lo em rosas Nas chamas do rubor que acende um beijo
Senti-lo gelo após alguma ausência Num susto de saudades, E no doce apertar de um longo abraço No seio me cair, tépida lágrima.
Não me pode dar tanto. Da vontade Os domínios amor nas asas prende; Se quando se quisesse amor nascesse, Quando se não quisesse amor findara!
Inda que a minhas preces comovida, Dissesse-me tudo que desejo agora, Faltava em tudo o mel que amor destila E unicamente amor!...
Anjo inocente, Não queixo-me de ti, regem os fados Das sensações o mundo; aos afetos O céu a cada um deu seu destino;
O tesouro que guardas no teu seio Foi destinado a outrem; Os desígnios do céu foram cumpridos E assim tu, sem querer, me deste a morte!...
Grosseiros corações, almas estreitas Mancham o querubim que os encantara, Porque as asas lhe nega; generoso, Inimitável, crescente o meu afeto
Das ânsias no martírio se acrisola; Por cada golpe que me dás no peito, Nova chama de amor me acendes n’alma, Extinta a minha última esperança
No árido deserto em que me arrojas. Inda busco uma flor para enfeitar-te! Não, não hei de acusar-te, mesmo quando Na explosão de meus gelos mais pungentes
Me for a mágoa de te haver perdido. És a imagem querida do meu êxtase; Intacta ficarás. Por entre a nuvem Que o infortúnio lançou-me sobre os olhos,
A mesma me será no pensamento, Benfazeja visão de um sonho eterno!
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