Mas perguntais-me vós, porqu’inda triste Vou caminho da vida pensativo, Depois de o ente achar, que único deve Por áureas sendas ao porvir levar-me?!
Por quê? Porque inda resta-me a incerteza, Essa inimiga certa da esperança, Que se me antolha horrenda em meus transportes! Di-lo-ei todavia, homens (embora
Traia o meu coração neste segredo, Que a mim só confiou), di-lo-ei — é força, Pois o exigis, é força confessar-vo-lo — O que serei, ouvi... é vaticínio
De um coração, a quem tornou profeta A luz de uns olhos lá do céu descidos. Serei Nume, ou Demônio sobre a terra... Todo ternura e amor, ou todo cólera...
Todo venturas, ou desgraças todo. Ser minha, ou não — eis todo o meu futuro, Para o qual duas páginas abertas Em perfeito contraste há neste livro
Imenso do porvir. É uma delas Toda negra e de sangue salpicada; A outra toda rósea, e matizada De azul e verde, com relevos de ouro!
Destas páginas n’uma os nossos nomes, O dela e o meu, por força hão de gravar-se. Ver-me-eis Demônio apascentando fúrias, Precipitado a caminhar na terra,
Como quem busca o termo da existência; Dos olhos a saltarem-se faíscas De loucura e furos; na destra um ferro, Nos lábios um som único — vingança!
E assim medonho, impenetrável, louco, Pisando por abrolhos sem senti-los, Insensível a tudo, aos próprios crimes, Querendo o mundo enfim todo de sangue!...
Se ela minha não for — serei Demônio! Ver-me-eis, porém, um Nume de venturas, Um prisma de afeições, cândidas todas, Um poeta de amor, sorrindo à terra,
Um ente só feliz olhando encantos; Ver-me-eis com os olhos em seu rosto impressos, Como os seus em minha alma impressos brilham; Ver-me-eis com os lábios em seus pés, e ao mundo
Entretanto c’os pés calcando a fronte!! Se Eulina minha for! — serei um Nume!!
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