Mas esse tempo de encantos, Que nunca julguei ter fim, Não é hoje para mim Mais que morta e seca flor!...
Do gênio mau completou-se A primeira profecia: Era o que o Gênio dizia No seu riso mofador.
A natureza calou-se Desde que o Gênio me viu; Minha alma inteira sentiu Repentina mutação,
Dei por mim em terra estranha; Tive novos pensamentos; Tive novos sentimentos; Criei novo coração.
Visão do Céu... não — da terra; Não podia ser do Céu; Que Deus no domínio seu Falsos arcanjos não quer;
Visão, que da natureza Toda a graça revestia, Por desdita vi um dia Num semblante de mulher.
Tinha a visão tal encanto, Que, ao vê-la, absorto fiquei; Tanto, que não escutei O profundo soluçar
Da inocência, que, sentindo Da paixão a ardente calma, Abraçada com minh’alma Se despedia a chorar.
Vida de louco passei; Mas achei nessa loucura Tanto bem — tanta ventura, Quais nunca a razão me deu;
Que, se a razão da verdade Tem os claros resplendores, — Amor o reino das flores Tem todo inteiro por seu.
E a esta senda estrepada, Que à morte os seres conduz, O que lhe importa uma luz, Se a não tapiza uma flor?
E se amor, além de flores, Também possui um clarão, Antes amor sem razão, Do que razão sem amor.
Mas foi-se o tempo de risos Da minha feliz loucura!... Libei o fel da amargura No mel de um beijo traidor!...
Do Gênio mau completou-se A segunda profecia: Era o que o Gênio dizia No seu riso mofador.
Dessa profunda chaga resta ainda Dorida cicatriz: a mão do tempo Talvez cure-a por fim; mas não tão cedo, Que inda verte de si pútrido sangue,
Se a magoam cruéis reminiscências De quadra tão feliz.
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