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1826–1864

III

Laurindo José da Silva Rabelo

Mas esse tempo de encantos, Que nunca julguei ter fim, Não é hoje para mim Mais que morta e seca flor!...

Do gênio mau completou-se A primeira profecia: Era o que o Gênio dizia No seu riso mofador.

A natureza calou-se Desde que o Gênio me viu; Minha alma inteira sentiu Repentina mutação,

Dei por mim em terra estranha; Tive novos pensamentos; Tive novos sentimentos; Criei novo coração.

Visão do Céu... não — da terra; Não podia ser do Céu; Que Deus no domínio seu Falsos arcanjos não quer;

Visão, que da natureza Toda a graça revestia, Por desdita vi um dia Num semblante de mulher.

Tinha a visão tal encanto, Que, ao vê-la, absorto fiquei; Tanto, que não escutei O profundo soluçar

Da inocência, que, sentindo Da paixão a ardente calma, Abraçada com minh’alma Se despedia a chorar.

Vida de louco passei; Mas achei nessa loucura Tanto bem — tanta ventura, Quais nunca a razão me deu;

Que, se a razão da verdade Tem os claros resplendores, — Amor o reino das flores Tem todo inteiro por seu.

E a esta senda estrepada, Que à morte os seres conduz, O que lhe importa uma luz, Se a não tapiza uma flor?

E se amor, além de flores, Também possui um clarão, Antes amor sem razão, Do que razão sem amor.

Mas foi-se o tempo de risos Da minha feliz loucura!... Libei o fel da amargura No mel de um beijo traidor!...

Do Gênio mau completou-se A segunda profecia: Era o que o Gênio dizia No seu riso mofador.

Dessa profunda chaga resta ainda Dorida cicatriz: a mão do tempo Talvez cure-a por fim; mas não tão cedo, Que inda verte de si pútrido sangue,

Se a magoam cruéis reminiscências De quadra tão feliz.

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