Mas inda que a sorte
Um estro me desse,
Que aos astros pudesse
Teu nome elevar;
Enquanto vir triste
Com dores pungentes
A pátria em correntes,
Não posso cantar.
Não posso cantar;
Enquanto vir bravos
Rojar como escravos
Infame grilhão:
Curvando a sicários
A fronte sublime!
Submissos, sem crime,
Pedindo perdão!
Não posso cantar,
Enquanto um malvado
Poder infamado,
Audaz, sem pudor,
Com seu bafo infecta
Brasílio horizonte,
Trazendo na fronte
— Prevaricador —;
Enquanto essa gente,
Tão ímpia e tão vil,
Meu caro Brasil
Puder governar;
Com a pátria inundada
De luto e de pranto,
Não posso ter canto,
Não posso cantar.
Porém se algum dia
O fero domínio
Do ímpio extermínio
Tiver de morrer;
Se o povo, esquecido
De loucos enganos,
Um dia os tiranos
Quiser abater;
Se um dia, cansada
De tanta maldade,
Soltar Liberdade
Seus raios da mão,
E os ceptros pesados
Dos reis fementidos,
Por eles fundidos,
Rolarem no chão:
E as nossas campinas
E prados virentes,
E os céus de contentes,
Trajados de azul.
Ouvirem os hinos
Da livre coorte
Da parte do Norte,
Da parte do Sul;
E os grandes Andradas,
Canecas, Machados
E mais nomeados
Por alto valor,
De lá do Empíreo
Tais cantos ouvindo,
Saudarem, se rindo,
Seu povo senhor;
Então minha lira,
Coberta de flores,
Já livre, louvores
Podendo entoar,
Aos doces encantos
Da quadra formosa
Virá sonorosa
Teus anos cantar.